Contra a trapaça político burguesa e o arrocho da vida dos trabalhadores

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O mal estar corre nas ruas do país. A recessão econômica e as amargas medidas do governo Dilma/PT a nível federal e Sartori/PMDB a nível estadual buscam salvar os lucros de banqueiros e empresários, cortando direitos, investimentos e aumentando o custo de vida sob o farsante argumento de que o momento é de “sacrifício para todos”. Aliado a isso tudo, o cheiro podre da corrupção sistêmica impregnado no ar, em que se articula uma complexa constelação de interesses e “escândalos” que envolvem desde os partidos da coalizão governista como aqueles da oposição de direita, grandes empresas e banqueiros e os grandes conglomerados de comunicação.

Aécio-com-Dilma-no-Congresso-dez-2013-FolhapressA operação Lava Jato da Polícia Federal trouxe à superfície um esquema bilionário de saque e espoliação dos recursos da Petrobrás, um trapaceiro “toma lá da cá”, operado por políticos e empresários pra financiar campanhas eleitorais e privilegiar negócios privados. No entanto, nem só de “Lava Jato” e “Petrolão” se alimenta esse artifício estrutural na política brasileira, a corrupção. Recentemente, o chamado “escândalo” do HSBC tem revelado uma complexa rede internacional de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal em paraísos fiscais na Suíça, administrada pelo próprio banco. Entre os implicados brasileiros encontramos os principais conglomerados de comunicação, como a rede globo, bandeirantes, o grupo folha e abril. Daí que esse caso não é motivo de alarde nos chantagistas telejornais de grande audiência.

Depois de ganhar as eleições por um fio, o governo Dilma desmonta a tática de marketing por esquerda (pra não perder eleitores desiludidos) e chama os quadros do sistema financeiro, da patronal e do agronegócio para afiar a faca do ajuste fiscal e do tarifaço contra o povo.

Vida cara e precária. Arrocho nos trabalhadores.

A promessa do capitalismo brasileiro, que vinha crescendo pela mão de uma desapropriação violenta dos bens comuns, pela dominação dos capitais do agronegócio, mineradoras e empreiteiras, quebra a cara com a queda do preço das “commodities” e da desaceleração do capitalismo chinês. As idéias triunfalistas de um país de classe média, puxado pelo consumo e o endividamento de massas, pelos empregos precários e a inclusão dos pobres como sujeito flexível do mercado, mostram sua fragilidade e já entram em desencanto em amplas camadas de trabalhadores do país.

A classe operária vive de novo as demissões na indústria e na construção civil. Só no ramo de autopeças a patronal prega mais uma chantagem, exigindo infinitos incentivos fiscais e flexibilização de direitos, ameaçando em caso contrário com 30 mil demissões ao longo do ano. A falta de água e luz cria calamidade nas periferias urbanas e o preço das contas de energia, da alimentação e dos serviços aumentam mais que a renda dos trabalhadores. A mudança de regras do seguro-desemprego e do acesso a benefícios previdenciários corta direitos e coloca sobretudo uma classe trabalhadora jovem e localizada em empregos precários (terceirizações, telemarketing, construção) em uma situação de maior vulnerabilidade e risco. Agora, as patronais sanguessugas podem demitir hoje e recontratar amanhã para se livrar dos encargos e assim engordar ainda mais seus lucros.

Os impostos castigam o consumo dos setores populares e médios, enquanto aliviam os ricos, donos de empresas e grandes fortunas. Em contrapartida a saúde e a educação pública seguem sucateadas, o transporte coletivo é péssimo, a justiça criminaliza a pobreza e a polícia é racista e mortal nas vilas, favelas e subúrbios.

Os precarizados, a massa dos trabalhadores brasileiros, alçados como modelo do regime de trabalho flexível e super-explorador, sujeitos de uma rotina de pesados sacrifícios, dão sinais de cansaço e irritação. A patronal, não satisfeita com os inúmeros incentivos vindos dos governos, quer mais trabalho precário e pressiona o governo pela lei de terceirizações.

A insatisfação cresce por todos os lados e chega a transbordar para além das velhas estruturas, normas e regras que o sistema oferece para sua canalização. Insatisfação representada por um sentimento difuso que, entre outras coisas, expressa rebeldias que vem de baixo.

Eles são todos sócios da trapaça burguesa-politiqueira.

A Lava Jato não fez nenhuma descoberta extraordinária. Ela volta a pôr em evidência um modo suprapartidário de governar que não toca nos privilégios das oligarquias, no poder dos grupos econômicos e financeiros e no regime ideológico das práticas institucionais. Trata-se de corrupção sistêmica. Como já dissemos outra vez, quem governa com o sistema, pelo sistema é governado.

Os partidos, os políticos, as burocracias, as empreiteiras, os bancos e os lobistas corporativos são todos sócios na corrupção e na impunidade. Uma mão lava a outra e todos tem sua vez. Quem não pactua não governa.

Na concepção liberal burguesa, a representação sempre foi um mecanismo legitimador da usurpação das forças coletivas e dos bens comuns pela vontade das minorias. Por isso que para defender a Petrobras e o patrimônio público a luta dos trabalhadores e do povo deve superar o controle burocrático estatal. Tem que ser uma luta para avançar na gestão direta do patrimônio público, pela mão das organizações operárias e populares.

Qual direita cara pálida?

protesto_diego-648974O agravante desse escândalo é que o PT, do mensalão de 2005 somado ao trambique com as empreiteiras na Petrobras, se afunda de vez na vala comum da política burguesa. E não é a esquerda que se degenera, como quer fazer passar o discurso monopolista da grande mídia e sim um PT domesticado pelo poder conservador das instituições e que cultiva entre os seus aliados, funcionários e políticos de carreira, um patrimônio formado pelos valores, as técnicas, os discursos e a bagagem ideológico-cultural da direita, daqueles que tomam o lado das injustiças e desigualdades da ordem burguesa.

O governismo vive os piores dias na sua carreira de partido da ordem. Enquanto o PT evolui na direção do centro e da direita, governa entre tropeços e comendo na mão das oligarquias. Já o outro setor da direita de partidos como o PSDB e DEM que figuram como oposição, pra não perder o bonde, se reagrupa e faz barulho aliado com as posições mais conservadoras e ultra-reacionárias.

Os grupos monopolistas que controlam a mídia de massas, em que pese terem sido favorecidos por verbas publicitárias, desonerações fiscais pelo governo e vista grossa pelas suas diversas sonegações fiscais, engrossam o caldo do oportunismo. Por um lado empurram as “verdades” da direita, travestidas de um discurso econômico “técnico” e pretensamente objetivo que defende a fatalidade do ajuste fiscal e por outro, surfam no discurso da corrupção para quebrar a moral de toda esquerda classista pela vidraça do PT.

O antipetismo que se manifestou massivamente nas ruas de todo o país no dia 15 de março, como há muito não acontecia, foi convocado por grupos da direita, partidos e formações liberais-conservadoras, as grandes mídias e seus “intelectuais”, setores evangélicos fundamentalistas e a fuzilaria ultra-reacionária de saudosistas do golpe de 64. Por sua vez, essa convocatória também foi capaz de sensibilizar parte expressiva dos trabalhadores, justamente indignados com os intermináveis casos de corrupção, pela estafante vida nas grandes cidades e o aumento no custo de vida. Hoje estes setores da direita já ensaiam uma qualificada disputa pelos rumos do descontentamento popular.

É preciso que se diga, sem meias palavras, que foram encorajados pela capitulação dos sucessivos governos petistas, que se ajoelham aos agiotas do sistema financeiro, sentam no colo das velhas raposas da oligarquia lideradas pelo PMDB e se atolam no balcão de negócios do Planalto, do Congresso e das estatais.

Outra ideologia, outras práticas para construir um povo forte.

A política que não avança na relação de forças contra o poder dominante deixa terreno a ser ocupado. O projeto histórico da frente de centro-esquerda liderada pelo PT, depois de alcançado seu objetivo de chegar à presidência da república, deixou plantada uma desorientação que não é fácil de medir. O avanço da direita na aliança governista e na oposição das ruas, assim como o sentimento confuso de setores populares entre fogo cruzado nos dão hoje uma amostra do lastro político-ideológico dessa trajetória.

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A experiência do PT, na busca e na conquista do governo, integrando-se nas instituições e nas regras do jogo, trouxe uma mudança importante na cultura e nos valores da esquerda. Aqueles sonhos e esperanças que foram mobilizados e produziam um sujeito de cambio que lutava em todas as frentes do povo para transformar o país e construir socialismo, foram esmorecendo. Muitos militantes do trabalho de base viraram os arrivistas de gabinete, ratos de aparelho. Quando muito, os teimosos foram simplesmente ignorados e substituídos pelos técnicos de gestão ou funcionários burocráticos da máquina. Sindicatos e movimentos sociais trocaram a independência da classe trabalhadora por cargos e ministérios, se fizeram gestores de fundos de pensão, assessores empresariais e linhas auxiliares do governo. Um processo que não se iniciou com a conquista da presidência, encontrando raízes ainda na década de 1980.

Essa subjetividade muito apegada a disputa de cargos e direções do aparelho e que põe o partido antes das lutas da classe, também fez escola entre a esquerda que não foi a reboque.

As relações de poder que encontram nessa conjuntura o suporte das idéias e os movimentos da direita têm haver, em grande parte, com esse processo histórico de desarticulação de forças sociais que amarga o campo classista. A colaboração de classes, a burocracia e o governismo desarmaram as organizações sindicais e populares, dividiram as lutas e as atrelaram ao estado. Formaram uma ideologia que reproduz as práticas das instituições burguesas, que faz do povo um sujeito que espera pelo que vem de cima.

Mudamos tudo ou não se muda nada.

Não formamos parte corrente do impeachment e tampouco as fileiras da tropa de choque do governo. Essa polarização que procura capturar as rebeldias que vem de baixo, definir e qualificar a luta social segundo as suas idéias, é o palco da briga entre elites e classes dominantes, uma briga entre vizinhos de condomínio privado, onde aos de baixo cabe, quando muito, o papel de simpáticos figurantes.

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É preciso ter clareza na análise e firmeza em nossos princípios classistas para não entrar no brete que os de cima tentam nos impor, onde tanto o bando governista como o bando da oposição de direita tentam insinuar que estamos fazendo o papel de linha auxiliar de seu “rival”. Nosso caminho não tem saída por cima e busca agrupar forças sociais para atravessar sem fraquejo uma etapa de resistência e fragmentação. Unidos com os setores classistas e os movimentos sociais que vem de baixo, contra o tarifaço, o ajuste fiscal e o passo abusado das direitas. Sem confiança na “mágica” dos acordos de cúpula, seja qual for a procedência. Fazer crescer junto com a insatisfação social as rebeldias do povo, a ação direta, a solidariedade, a participação popular. Reorganizar o tecido social para lutar nas ruas, nas greves e ocupações, desenvolvendo as organizações de base como os núcleos fortes do poder popular. De baixo pra cima, com federalismo e democracia de base, criar os músculos da frente dos oprimidos capaz de construir uma mudança real que Socialize a riqueza e o poder.

CONTRA A TRAPAÇA DOS RICOS E O ARROCHO DO GOVERNO E DOS PATRÕES! ORGANIZAR A REBELDIA DAS RUAS, GREVES E OCUPAÇÕES!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG / 20 anos!!!

Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB

Não se intimidar, não desmobilizar! Toda nossa solidariedade ao companheiro Vicente!

Janeiro de 2015, às vésperas da retomada das lutas contra o aumento das passagens e em defesa de um transporte 100% púbico em Porto Alegre, recebemos a notícia da sentença dada ao companheiro Vicente, militante da FAG e lutador social do Bloco de Luta pelo Transporte Público de Porto Alegre. Vicente está sendo condenado a um ano e meio de prisão por dano ao patrimônio público e crime ambiental, “crimes” que teria cometido em Abril de 2013 durante uma manifestação do Bloco de Luta em frente a Prefeitura de Porto Alegre. Trata-se da primeira condenação em Porto Alegre e para nós uma clara tentativa de intimidar e colocar medo no conjunto de lutadores e organizações que estão rearticulando as lutas nesse início de 2015. Um expediente político e histórico utilizado pelos setores dominantes de nossa cidade e de todo o mundo: o encarceramento dos que se levantam. Não nos desmobilizaremos e a nossa solidariedade será militante e nas ruas!!!

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E a criminalização continua…

O fato de a condenação nos ter sido comunicada apenas uma semana antes do primeiro protesto do ano do Bloco de Lutas pelo Transporte Público é tudo menos uma obra do acaso ou de um processo regular do poder judiciário. Inicia-se o ano e ao mesmo tempo se começa a mexer nos processos que estavam tramitando desde 2013: adicionando nomes à alguns, novos crimes à outros. O processo neste contexto busca ter o mesmo efeito de uma bala de borracha ou de uma bomba de efeito moral: uma tentativa de intimidar e freiar as lutas nas ruas que ousam questionar os lucros dos empresários e os conchavos já evidente das empresas com os poderes públicos.

A situação está longe de ser apenas uma situação local: quem achou que a conjuntura de criminalização havia se esgotado em virtude do descenso das mobilizações de rua após a Copa do Mundo em 2014, a recente movimentação dos governos e dos aparelhos repressivos indicam o contrário. Em São Paulo, Rio de Janeiro e uma série de outras cidades no Brasil que iniciaram o ano com mobilizações contra o aumento das tarifas de ônibus a repressão tem usado dos mesmos expedientes contra os manifestantes: gás lacrimogênio, bala de borracha e detenções arbitrárias. O carioca Rafael Braga Vieira, que era até então o único condenado dos protestos de junho de 2013 continua preso e em Porto Alegre os processos voltam a ser movidos, novos nomes são inseridos e agora a primeira sentença é dada, sem prova alguma. É a velha justiça burguesa tomando lado em uma luta entre opressores e oprimidos que está longe de acabar.

Contudo, a luta e organização dos de baixo não começou hoje e também continuará. Mobilizam-se os jovens, os trabalhadores, os sem tetos e as comunidades de periferia. As mobilizações de rua de 2013 abriram novas possibilidades na gestação de experiências organizativas e de luta que o conjunto da esquerda combativa e anti capitalista precisa ajudar a fomentar e impulsionar, descartando as velhas práticas vanguardistas, sectárias e impositivas que infelizmente ainda permeiam discursos e práticas de muitas organizações. Acreditamos que só assim podemos criar força social que desde baixo vá gestando mecanismos de auto-organização e cravando em seu horizonte a necessidade de transformação social do conjunto da sociedade. Uma verdadeira frente de oprimidas e oprimidos solidária a todo e qualquer companheiro preso, torturado, assassinado e desaparecido.

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2015: avançar em organização, cercar ainda mais de solidariedade @s que lutam!

A seletividade do sistema penal também se torna evidente neste caso. Ao longo desse processo que começa com mais de uma dezena de acusados pelos danos realizados em uma manifestação com mais de mil pessoas, vimos arquivarem um a um todos os suspeitos, responsabilizarem o único rapaz negro de ideologia anarquista que estava entre os acusados e agora incluírem outro militante negro do Pstu. Sabemos que o motivo central dessa condenação é de ordem político-ideológica mas não podemos omitir o fato de que a cor negra dos acusados tem um peso importante.

Os últimos processos tiveram como destaque a criminalização contra os coletivos e movimentos anarquistas. Em 2013, tivemos os nossos espaços públicos invadidos e nossos livros recolhidos, passando por pesados processos de inquéritos onde o que era avaliado era nossa posição em relação a temas como autoridade, governo, forças policiais e outros assuntos caros à ideologia anarquista. Panfletos, cartazes e literatura foram anexadas nos processos, como se fossem provas circunstanciais que mostrassem algum papel de mentor intelectual da nossa ideologia nas depredações ou saques realizados nas manifestações de 2013, que contavam com mais de 50 mil pessoas em Porto Alegre.

O companheiro Vicente, assim como os demais militantes e lutadores de outras organizações, coletivos e ideologias, não foi o primeiro e não será o último jovem negro e anarquista a ser condenado nesse Brasil racista. São milhares de homens e mulheres negros/as e pobres exterminados e condenados diariamente pelas polícias militares e pela justiça burguesa e racista. É a elas e eles que nossa solidariedade militante é direcionada e será junto de cada trabalhador/a que cerraremos nossos punhos. Não nos intimidaremos e em cada marcha de rua, piquete, greve, ocupação estaremos ombro a ombro com todos e todas que lutam!

Solidariedade à todos e todas companheiros e companheiras perseguidos por lutar!

Pelo fim da polícia militar!

Nossa ideologia anarquista não se presta a caricaturas!!!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

Aos povos do campo, da cidade e da floresta: nossa Solidariedade!

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O povo ganhou as ruas no período pré-eleitoral e os efeitos sociais produzidos vão muito além dos resultados eleitorais expressos na composição ministerial mais conservadora, dando largo e expressivo poder ao Agronegócio e as corporações que o constituem realocando seus interesses e projetos de continuidade de dominação. Esta reorganização respingou também nas disputas e novas composições governamentais.

Chegar ao fim de mais um ano e novamente não ter o que comemorar: eis a dura, trágica e histórica realidade dos povos indígenas e quilombolas deste país. Se aprovada a PEC 215/2000 promete empurrar os povos originários à literal necessidade de defesa nesta guerra milenar por seus territórios ancestrais e pela manutenção dos poucos direitos conquistados a custa de muita luta, suor e sangue. Para que fique nítido, essa PEC (Proposta de Emenda à Constituição) prevê a mudança em relação aos órgãos competentes pela homologação de territórios indígenas e quilombolas, tirando do INCRA e FUNAI a atribuição das demarcações e transferindo para a matilha do Congresso Nacional essa responsabilidade. O mesmo Congresso que age com truculência e indiretamente assassina os corpos e a cultura de nossos ancestrais. Isso significa que toda e qualquer demarcação de terras deverá passar pelas mãos sujas e corruptas da bancada ruralista para ser aprovada (ou sempre desaprovada), de maneira que os processos demarcatórios continuam totalmente parados.

Frente à judicialização e criminalização dos que fazem a luta pela terra e pela floresta, o acirramento das lutas em defesa das titulações dos territórios originários. O derramamento de sangue e as desaparições seguem sendo arquitetadas pela aliança entre latifundiários, politiqueiros e empresários que tem como único interesse o extermínio dos bens naturais para o uso privado do projeto de morte que visa apenas expandir seus lucros através do modelo colonial agroexportador (soja, minérios, carne).

O período de falsas promessas e falácias sobre a igualdade das urnas e votos passou; falácias sobre o socialismo elitista que não geram ilusões na maioria da população. É preciso fortalecer nossas ações na perspectiva do Poder Popular, rompendo o cerco do isolamento que sofrem nossos territórios através da solidariedade, da denúncia, da informação e atuação permanente junto ao nosso povo. Se os ataques feitos aos povos originários são feitos pelas mãos dos de cima, o que resta a nós os DE BAIXO é fechar o punho e resistir ombro a ombro lutando em defesa dos territórios, dos bens naturais e das culturas ancestrais.

Em todas as comunidades do campo, cidade e floresta há a permanente necessidade de criar e organizar novas formas de resistência, seja combatendo o avanço das plantações com veneno ou enfrentando a especulação imobiliária. A força das Jornadas de Luta não ficou restrita a junho. Ganhou visibilidade e solidariedade de muitas partes do mundo e o espaço que tomou no imaginário social gerando noções sobre a capacidade de auto-gestão, de luta permanente, de descrença no sistema e de confiança nos movimentos sociais como geradores do poder necessário para as reais conquistas, é o que pode possibilitar avançarmos para um modelo de sociedade que a vida tenha real valoração.

Continuar a luta dos pobres do campo, da cidade e da floresta.

Pela demarcação, titulação e defesa dos territórios indígenas e quilombolas!

Contra a PEC 215/200.

QUANDO OS DE BAIXO SE MOVEM, OS DE CIMA CAEM!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

19 anos da FAG: Não tá morto quem peleia!!!

19 anos

Há 19 anos um grupo de companheiros/as escolheu fazer parte da construção de um projeto político de cores rubro negra, em que a defesa das liberdades coletivas fosse condição essencial para a forja de um socialismo sem privilégios e dominações de qualquer tipo. Um projeto que, não sendo novo, se colocava como um imenso desafio para aquela geração de jovens que, órfãos de referências diretas em nosso país, buscava referências nos muitos anos de luta e experiência de organização sindical e popular dos irmãos da banda oriental organizados na fAu (federação Anarquista uruguaia).

Não que as experiências de luta e de organização do anarquismo no Brasil não fossem ricas por si só. Mas pesou muito o fato de que a geração de militantes que de alguma forma vivenciaram na carne as experiências de organização dos trabalhadores até os anos 50 do século XX não estivesse mais viva para contribuir na formulação das respostas aos anseios daqueles e daquelas que nos inícios dos 90 queriam se organizar para retomar o vetor social do anarquismo.

Organização para dar conta não apenas do estudo teórico e doutrinário de nossa ideologia, mas que pudesse responder aos desafios cotidianos da inserção anarquista no meio sindical, estudantil, comunitário, agrário e popular. Uma organização que pudesse articular essas diversas experiências de luta e organização dos de baixo no âmbito de uma perspectiva estratégica em que os oprimidos possam ser protagonistas da transformação social, sem vanguardas auto-eleitas dando ordens sobre o que fazer. Naquela época, foi a organização política específica dos anarquistas (o especifismo) que se colocou como a melhor resposta a esse anseio e, passados 19 anos, acreditamos que o anarquismo especifista continua sendo uma boa ferramenta para nossa organização enquanto militantes anarquistas. Uma escola de vida e militância libertária que é, para nós do Rio Grande do Sul, a Federação Anarquista Gaúcha – FAG. São 19 anos buscando enxertar verdades novas no tronco das velhas verdades fundamentais como dizia o companheiro anarquista italiano Camillo Berneri.

São 19 anos germinando um mundo novo em nossos corações e construindo um homem novo (diríamos um sujeito novo) como falava o anarquista espanhol Durruti e o revolucionário latino americano Che Guevara. São 19 anos estudando e se inspirando nas experiências de luta de mulheres e homens de todas as partes do mundo que muito antes de nós já estavam no labor cotidiano de erguer uma nova sociedade em cima dos escombros da velha sociedade capitalista. Não esquecemos de Lucy Parsons, Mikhail Bakunin, Louise Michel, Errico Malatesta, J. Proudhon, Anselmo Lorenzo, Voltairine Cleyre, P. Kropotkin, Elena Quinteros, Gerardo Gatti, José Oiticica, Polidoro Santos, Edgar Leuenroth, Emma Goldman, Alberto Mechoso, Maria Canária, Leon Duarte, Espertirina Martins, Nicola Sacco, Bartolomeu Vanzetti, os Mártires de Chicago, Neno Vasco, Domingo Passos e de tantas outras companheiras e companheiros (da nossa matriz e de outras matrizes da esquerda combativa) que de alguma forma plantaram sementes de Socialismo e Liberdade.

É pela memória dessa companheirada que seguimos nos organizando e lutando, desde o lugar que nos toca atuar e junto aos homens e mulheres que dia a dia constroem através de seu suor e trabalho essa sociedade.

19 anos de luta pelo Socialismo e pela Liberdade!

Viva a Federação Anarquista Gaúcha!

Viva a Anarquia!

Lutar e vencer fora das urnas – Opinião Anarquista sobre o 2º turno das eleições

Outubro de 2014

Os resultados parciais das eleições para o governo federal em 1° turno repetem a polarização entre o PT e o PSDB dos últimos 20 anos. Votos brancos, nulos e abstenções chegaram perto de alcançar 30% dos eleitores. O congresso nacional teve pouca renovação e posições conservadoras lograram um avanço. Ao que tudo indica o governo Dilma terá no próximo dia 25 de outubro uma disputa apertada com o candidato Aécio Neves.

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Em nosso Ato Público de 20 de setembro reafirmamos que a via eleitoral é bloqueada pelos poderes econômicos, pelos mecanismos conservadores do Estado e pelos oligopólios da mídia para fazer mudanças que atinjam as estruturas do poder dominante. Trocando em miúdos, quem faz carreira e se habilita a governar com o sistema, pelo sistema é governado. O espaço de manobras da política dentro das instituições e as relações de poder que a fazem funcionar é marginal e controlado para que nada saia da ordem de coisas estabelecida.

Com isso, não fazemos vista grossa com o que tem de específico e singular entre os candidatos e os partidos da democracia burguesa. A rigor está fora do panorama das eleições presidenciais um projeto reformista, por esquerda, no sentido clássico. O que vemos são variáveis administrativas, modos de operar a máquina que ao final não põem em causa as suas engrenagens, não questionam, ainda que timidamente, as suas regras de funcionamento.

Os governos Tucanos foram a mão pesada do neoliberalismo no Brasil. Dirigiram o ingresso violento do país nos circuitos ideológicos e econômicos do mercado capitalista globalizado. Privatizações de bens públicos, arrocho salarial, recorte de direitos sociais, desemprego de massas e desmonte dos serviços públicos fizeram parte de seu expediente. Em que pese toda rejeição popular suscitada, a direita logrou impor no fundamental os seus estabilizadores da ordem. O que se chama pelo nome de estabilidade econômica é, antes de tudo, a produção de um consenso conservador que tomou de assalto o discurso político e fez recuar posições de esquerda até o ponto de fazer o seu setor majoritário renunciar as pautas mais caras da classe trabalhadora e se integrar ao poder como mais uma peça funcional.

dilma-aecio_1_0O PT governista, na sua escalada ao parlamento e, finalmente no governo central, é expressão de uma história de capitulação ao sistema. Esse processo não começa quando o Lula chega Lá, mas toma definições no curso de uma linha que faz da política parlamentar e da carreira burocrática-institucional a sua escada. Que se consuma em 2002, com a declaração de fé da “carta ao povo brasileiro”, feita ao pé da bandeira da ordem e do progresso capitalista.

O período de 12 anos de governo petista possui elementos distintos aos dos dois mandatos do governo FHC. O PT cria governabilidade com uma política de alianças que atrai e divide setores oligárquicos da direita. Foi empurrado pra vala comum dos conchavos, lobbies, propinas, caixa dois entre tantos esquemas de desvios de verbas públicas e favorecimentos de negócios privados. Na sociedade organiza um pacto social que faz chegar mecanismos de governo nas duas pontas da estrutura de classes. Faz política de crescimento dos ganhos do sistema financeiro e dos grandes capitais e, junto a isso atende com programas sociais os mais pobres que estavam desassistidos de políticas públicas, incluindo os setores populares no mercado via consumo. Contudo, deixa de fora o combate às estruturas de concentração da riqueza e do poder e medidas que atuem nessa direção como a taxação das grandes fortunas, redução da jornada de trabalho sem perdas salariais, fim da terceirização, reforma agrária e urbana que ataque a concentração fundiária e a especulação imobiliária, etc.

O governismo petista conduz ideologicamente a um desarme do projeto independente das organizações e das lutas das classes oprimidas. Quebra a unidade de classe e planta confusão, ambições e valores que formam um perfil técnico-burocrático absolutamente estranho aos valores militantes de esquerda. Faz do sindicalismo oficialista aparelhos de transmissão da vontade do governo e co-gestores de fundos de pensão, quebrando toda a cultura organizativa e de luta com perspectivas de acumulação a um projeto de ruptura e transformando os tradicionais instrumentos de organização da classe em meros gestores burocráticos.

Esse processo de enfraquecimento progressivo da organização da classe trabalhadora atingiu níveis absurdos com a ascensão da coalizão pretensamente reformista ao Planalto, mas vem de antes, muito antes. Em que pese as inúmeras expressões de sindicalismo combativo e de base no seio da CUT ao longo dos anos 1990, podemos afirmar que nessa década, fundamentalmente após o lamentável desfecho da greve dos petroleiros de 1994, a CUT vem consolidando um fazer sindical alheio a sua base. Não são poucos os exemplos onde o aparato governista no movimento sindical atua de forma deliberada para desmobilizar e desmoralizar o conjunto dos trabalhadores.

Nesse sentido, o próprio PT é responsável por criar o estado de coisas que pode impedir sua continuidade enquanto governo. O Partido dos Trabalhadores não está enfrentando simplesmente uma ofensiva dos setores mais à direita, mas fundamentalmente a sua própria cria.

Organizar a rebeldia que vem de baixo

Nosso voto é NULO e ATIVO!

Enquanto anarquistas, não participamos no 1º turno e não participaremos nesse 2º turno das eleições com o nosso voto. Nosso voto foi e será nulo! Um voto nulo ativo, pois ativo é e será nossa militância cotidiana na organização independente dos diferentes setores das classes oprimidas. Enquanto anarquistas politicamente organizados na Federação Anarquista Gaúcha (FAG), apostamos na inserção social orientada estratégica e programaticamente e que dê passos concretos na construção do Poder Popular. Um esforço de fomento e impulso criativo no interior dos movimentos sociais e espaços de base da participação, iniciativa e protagonismo. Nas fábricas, oficinas, escolas, faculdades, bairros, no campo e na floresta.

CABNão temos nada a oferecer, hoje, àqueles e àquelas que pensam as eleições burguesas como um meio mais fácil, rápido e eficaz de resolução dos nossos problemas enquanto povo. O que temos a oferecer é um espaço de organização, um projeto coletivo a se construir no cotidiano das lutas por melhores condições de vida e um horizonte Socialista e Libertário. Não estamos falando de algo para um amanhã que nunca chega e sim da forja diária de valores combativos, de lutas por conquistas parciais no marco de conquistas estratégicas, de acúmulo de forças e de experiências coletivas que não são perdidas tão facilmente na troca de governos de turno.

Nosso voto é nulo, nossa militância ativa, constante e cotidiana!

Organizar a rebeldia que vem de baixo!

Lutar e vencer fora das urnas!

Ato político da FAG – Como votam os Anarquistas?

Realizamos no dia 20 de setembro Ato Político Anarquista em que compartilhamos com a companheirada presente alguns elementos de análise da conjuntura eleitoral que a nossa Organização tem discutido e apontado. Da mesma forma, foi um momento de fazermos pública a nossa linha política para a conjuntura eleitoral e para além dela. Abaixo é possível ver algumas fotos do ato e o discurso realizado sobre o tema.

Ou se vota com os de cima, ou se luta e se organiza com os de baixo!

De baixo pra cima se luta e se cria um povo forte.

Lutar e Vencer fora das urnas.

As mobilizações de massa da juventude que escreverem um pedaço da história recente do Brasil com as Jornadas de Junho ainda não tiveram um final. A explosão das ruas anunciada pelos estudantes-trabalhadores do regime flexível, sujeitos da rotina neurótica e estafante das grandes cidades, agravada pela deterioração dos serviços e dos bens públicos, não foi satisfeita. As urgências populares pela ampliação dos seus direitos continuarão em cena. São dramas brasileiros cotidianos, e ainda vão latejar muito. Terão que ganhar potência em organizações de base e com um federalismo que una as rebeldias e não se deixe capturar pelas instituições. Não serão as eleições e a oferta dos partidos da democracia burguesa que confortarão o mal-estar que provoca o sistema.

Os candidatos que lideram as pesquisas para presidente – Dilma, Marina e Aécio – não tem projeto pra fazer a mudança social que pode dar soluções definitivas e sem retrocessos às classes oprimidas. Por outro lado, o reformismo eleitoral não tem a menor adesão dos votos. E tampouco teria a liberdade de cumprir seu programa, nas regras do jogo institucional, se chegasse a representar algum perigo ao poder. A via eleitoral é bloqueada pelos poderes econômicos e pelos mecanismos conservadores do Estado quando se trata de fazer reformas que atinjam as estruturas dominantes. As legendas de esquerda são coadjuvantes que emprestam verniz liberal-democrático ao Estado de direito das oligarquias e dos proprietários.

As eleições não possibilitam tomada de decisão estratégica sobre as pautas que motivaram os conflitos socais que tem vazão nesta etapa aberta da luta de classes. Os fatores conservadores do sistema deixam uma margem muito pequena para as manobras dos governos de turno. Pela formação histórica do Brasil e pela sua liderança no continente eles pesam ainda mais. O que está em disputa são gradações do modelo de gestão de um sistema dominado globalmente pelo capitalismo financeiro. O reformismo está fora de causa. Governar é, em primeiro lugar, fazer arranjos com as estruturas de poder que não obedecem ao voto.

O Estado não é uma máquina neutra que põe em funcionamento suas instituições ao gosto dos pilotos da vez. Na concepção liberal burguesa a representação sempre foi um mecanismo legitimador da usurpação das forças coletivas e bens comuns pela vontade das minorias. O Estado é o poder político das classes dominantes, o Estado oligárquico de direito, onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, como diz o ditado popular.

No sistema político brasileiro, quem não pactua com as oligarquias não governa. Quem não joga na moeda corrente das barganhas, dos lobbies corporativos, dos loteamentos de cargos e dos mensalões não faz base de apoio. O PMDB, maior partido do país que desde a nova república “sempre foi governo”, cobra fatura da estabilidade política dos pretendentes ao trono. Os gordos investimentos das corporações privadas formam uma bancada poderosa de industriais e ruralistas no congresso. A bancada evangélica faz vigília reacionária sobre os movimentos por liberdade e direitos civis.

O congresso nacional tem alto instinto de conservação, de impunidade, de causa própria. Nenhuma vocação pra mudanças de fundo, para a participação popular, para perder privilégios sobre a política nacional através de mecanismos de democracia direta.

A justiça e as forças armadas tampouco fogem da regra. São aparelhos da ordem que investem sobre a sociedade os juízos do direito burguês da propriedade e o monopólio da violência sobre os desajustados. A justiça que anistia os golpistas e os torturadores do regime de 64 é a mesma que manda prender negros e pobres e os espreme nas jaulas do sistema carcerário. Os milicos guardam o artigo 142 na constituição federal que lhes autorizam a suspensão da ordem legal. São, em última instância, o comando das polícias militares que são desaquarteladas e postas na rua durante os anos da ditadura civil-militar a reprimir, torturar e matar até os nossos dias. As forças armadas dobraram a república, fazendo recuar as demandas de memória, verdade e justiça contra os operadores do golpe de Estado. A Comissão Nacional da Verdade nasceu no governo Dilma com os pés amarrados, com os movimentos cercados, pra que nenhum carrasco do povo seja julgado.

As liberdades constitucionais de pensamento e de expressão são aparelhadas pelo poder oligopolizado dos donos dos meios de comunicação: cerca de 11 famílias. Elas tem o controle da produção das mídias de massa que pautam o cotidiano brasileiro, selecionam e hierarquizam o que acontece, regulam a qualidade da informação e fazem vetor privilegiado do sentido, do juízo público e dos valores que circulam. A concentração da mídia brasileira é patrocinada com verbas publicitárias do governo. Em 2012 a secretaria de comunicação da presidente Dilma deu R$ 1,7 bilhões para os oligopólios.

Os bancos e o sistema financeiro que dominam de fato ou de direito as autoridades monetárias mandam cortar gastos públicos para pagar a agiotagem da dívida pública, subir juros e deixar porteira aberta para os capitais especulativos. O grupo Itaú Unibanco que tem a herdeira Neca Setúbal como fiel escudeira de Marina Silva festejou lucros de mais de R$ 15 bilhões em 2013 durante o governo Dilma. Os lucros dos banqueiros não param de crescer.

Os grandes capitais produtivos são desonerados de impostos e recebem ajudas generosas do Estado. O petróleo do pré-sal é partilhado no leilão com as grandes empresas transnacionais do setor. O BNDES ajuda montadoras como Volks, Fiat, GM, patrocina fusão de corporações como Sadia e Perdigão, Oi e Brasil Telecom, alavanca as empreiteiras com as mega-obras, financia o pacote privatista de concessão de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias aos grupos privados. Tudo subsidiado com recursos do Fundo de Garantia dos trabalhadores e por endividamento do tesouro nacional.

A via eleitoral é bloqueada pelos poderes econômicos corporativos, pelo discurso de verdade dos oligopólios da mídia e pelos mecanismos conservadores do Estado quando se trata de fazer reformas que atinjam as estruturas dominantes.

No modelo atual, o governo dirige o Estado como financiador público do desenvolvimento capitalista privado, tomando dinheiro a altos juros da banca financeira. É uma política que leva a concepção ideológica do neodesenvolvimentismo, que procura ajustar com fundos públicos o crescimento de setores do capital ao lado de certo nível de emprego, programas sociais e crédito pro consumo de massas. Faz idéia de remediar as brutas desigualdades sociais que tem o Brasil com um pacto social, onde a classe capitalista puxa o carro e os setores populares tem uma participação residual e incerta. As ações sociais como o Bolsa Família, que atendeu 14 milhões de famílias em 2013, tem um orçamento dez vezes menor que o patrimônio das 15 famílias mais ricas do país, quem tem na sua lista seleta sonegadores de imposto como as organizações Globo e o grupo Itaú Unibanco. A expansão do ensino superior é feita a base de compra pública de vagas no mercado das universidades particulares, e de um evidente “pioramento” da qualidade da educação. A geração de empregos que o governo central estimula com generosas ajudas aos patrões está ligada a baixos salários e trabalho precário.

Pra conquistar soluções reais para o andar de baixo, que tenham direção inequívoca de uma mudança social, sem meias voltas, só com combate as estruturas de concentração do poder e das riquezas. Essa peleia não pode pedir bexiga pras oligarquias políticas, nem socorro dos milicos, nem edição honrosa do Jornal Nacional, nem tampouco colaboradores na Camargo Correa, no Bradesco ou na JBS.

O discurso do crescimento e do Brasil de classe média que foi a tônica do governismo está perdendo o embalo, não produz mais o mesmo encanto. De 2011 pra cá a roda da economia já não gira mais como antes. O crédito fácil que ativou durante um período o sonho do consumo de massas vai virando pesadelo da dívida. O ganho real dos salários é muito pequeno e os empregos precários e mal pagos. O custo de vida pega preço e os alimentos baratos perdem lugar pra pauta de exportações do agronegócio. Os serviços públicos não melhoram de qualidade. A integração relativa da base da sociedade de classes, como sujeito flexível dos controles do mercado, já não faz mais sentido em alguns setores.

Da conjuntura internacional não sopra nenhum vento a favor. A Europa, pra tomar um exemplo, enfrenta amargamente e sem prazo de vencimento a recessão, o desemprego e a pobreza. O alto mundo das finanças, onde nenhuma corporação capitalista foge do esquema, fez a farra e passou a conta para os setores médios e para a classe trabalhadora.

E o que dizer do RS, em que parece haver uma feroz disputa em torno de 2 projetos de sociedade? Só parece! O imaginário de tipo plebiscitário que as candidaturas de Ana Amélia Lemos/PP e Tarso Genro/PT vem suscitando e a representação que eles se fazem de modelos mais puros, fazem com que passe desapercebido o fato de que ambos projetos jogam conforme as regras do jogo e de que ambos nem de perto serão capazes de alterar as estruturas de poder do RS. Dívida pública que sangra os fundos públicos pra pagar o capital rentista; o poder do agronegócio na economia gaúcha, no desmonte das normas ambientais e sobre a agenda de investimentos em infraestrutura (portos, geradoras de energia) e a guerra fiscal da indústria para se apropriar de recursos do estado (fundopem) estão fora de causa nessas eleições.

Mas não precisamos ir tão longe. Com relação ao governo Tarso, basta lembrarmos de toda a repressão, criminalização e perseguição dos lutadores sociais do Bloco de Lutas, por exemplo. Das balas de borracha, dos mil gaseificados na esquina democrática, da cavalaria que corria a trotes de cavalo enquanto arrastava pelos cabelos jovens manifestantes. Das detenções arbitrárias após as manifestações. Da prisão e exposição na mídia de massa de professores do magistério estadual que participaram dos protestos. Das invasões e apreensões de sedes públicas e de casas de militantes socialistas. Dos discursos intelectualizados do governador relacionando anarquismo com fascismo.

E não só isso! Não podemos esquecer a paralisação das demarcações das terras indígenas e o descaso do governo Tarso com relação a esses povos e os conflitos que se acirraram entre indígenas e pequenos agricultores.

Por outro lado, há um possível governo Ana Amélia. Se é impossível não associarmos sua imagem com a administração da ex-governadora, a Yeda Crusius/PSDB, são condições diferentes as de agora. O PP (nacionalmente alinhado ao PT) é um partido que tem base forte pelo interior, que representa historicamente as oligarquias rurais e que provavelmente terá relações de força mais favoráveis na barganha que monta a base do legislativo. Trata-se de uma candidatura que conta com a preferência do grupo RBS onde foi funcionária de longa data. Além disso, a truculência com as lutas sociais tende a se intensificar ainda mais. A ascensão da candidata do PP é proporcional as baixas expectativas com reformas sociais e políticas públicas que resultam do “desencanto com o PT”, de uma sensação de ‘menos pior’ que é cada vez mais fraca de sentido.

Não se trata, portanto, de um projeto burguês contra outro das classes trabalhadoras. Ambos são projetos funcionais a lógica de dominação do capitalismo. Em ambos, prevalece a lógica do Estado como lócus privilegiado da política e das classes dominadas como sujeito passivo. Para o PT, as mobilizações de 2013 se bem expressam um descontentamento com o que ai está, não representam a possibilidade da gestação de algo positivo e construtivo e que aponte mudanças de fundo desde seu seio. Elas não fariam política verdadeira!

Aquilo que reclamaram as massas em junho de 2013 não ficarão por aí, mofando no expediente burocrático das autoridades, simulando pauta nos tramites e conchavos dos gabinetes, insuflando discurso pop na tribuna de um congresso picareta. Por um ou outro lado vão ganhar vazão de novo, não se acomodarão porque acusam demandas que não podem ser reprimidas o tempo todo pela polícia, tampouco esvaziadas por eleições que passam ao largo de mudanças estruturais enquanto que a vida precária e endividada dos de baixo continua.

Assim também serão as lutas que deram os setores populares atingidos pelas obras da Copa, 250 mil pessoas ameaçadas ou atingidas por despejo das suas casas, os populares das ruas que foram varridos pra longe do centro da cidade.

As greves rebeldes de base que atropelaram a burocracia sindical, a brava luta sem pelego e sem bombeiro dos operários dos canteiros de obras, dos transportes, dos garis. Dos trabalhadores que se defendem com empregos de baixos salários e péssimas condições de trabalho, terceirizações, regimes flexíveis de exploração do trabalho. A linha dos sindicatos combativos que não se curvam ao governismo e não fazem pacto com os patrões.

A dignidade das favelas que não se calam e exprimem a criminalização da pobreza, o genocídio do povo negro, a impunidade da polícia assassina.

A resistência dos pobres do campo ao saque do agronegócio, das mineradoras e o impacto das mega-obras que são tocadas pelas empreiteiras, o trabalho escravo, a violação dos territórios indígenas e quilombolas e a não reforma agrária.

O cenário de indeterminação aberto pelas jornadas de 2013 está longe de se definir. Ele pode esfriar por um momento, em conjunturas pontuais que jogam forte seus mecanismos de fantasia, como a corrida eleitoral. Mas não temos dúvidas que ele não acaba aqui.

Esse processo de lutas rebeldes produziram, entre tanta riqueza de valores e sentidos que gestam a experiência de um povo que abre caminho novo, vetores ideológicos de mudança que não se dissipam tão fácil. Dão passagem a uma geração que não se reconhece nas formas tradicionais de fazer política burguesa, que desconfiam da representação dos governos e parlamentos, do burocratismo sindical e dos partidos eleitoreiros. Que buscam formas de participação sem intermediários e se apropriam das redes sociais como fator de socialização em grupos. Que faz da forças das ruas e da ação direta de massas a sua expressão de potência. Está em processo uma nova cultura política, que excede os rótulos e as formas instituídas, que carrega sonhos e rebeldias que não tem mais referência com a construção de esquerda dos anos 80, o “Lula Lá”. Nós pensamos com muita humildade que a corrente libertária do socialismo tem muito a aportar, a ajudar a superar a insuficiência das ruas com sua sensibilidade anti-autoritária. A lutar e organizar com cabeça coletiva, democracia de base e com sentido revolucionário de povo.

Os anarquistas da FAG votarão nulo nas eleições de 5 de outubro. Como já afirmamos em outra oportunidade: pra mudar a sociedade, enfrentar o poder e suas classes dominantes, os atalhos do menos pior, do possibilismo, nunca conduzirão até outras relações de força para os oprimidos mudarem de vida. Não cremos tampouco que pedir votos, seja qual for a legenda, seja a atitude política mais adequada para produzir ideologia de transformação. Somos partidários do poder popular, de uma construção pela base com os processos de luta e organização popular, de mecanismos de democracia direta e federalismo, de um trabalho militante decidido a gerar capacidades políticas que gestam formas de autogoverno das massas em antagonismo ao poder constituído. Nem apolíticos, nem adeptos das velhas estruturas de representação burguesa, outra forma de fazer política. É essa nossa postura militante e é nesse sentido que empenharemos nossos esforços.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo!

Nossas urgências não cabem nas urnas!

Arriba lxs que luchan! Sempre!

 Federação Anarquista Gaúcha!

20 de setembro de 2014

 

 

 

 

 

Ato político: Como Votam os Anarquistas?

20 de setembro às 17:00
No Ateneu Libertário A Batalha da Várzea
Ramiro Barcelos, 1853, Bom Fim – Porto Alegre

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Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/920106051337332/?fref=ts

ATO POLÍTICO ANARQUISTA DA FAG – PELA CONSTRUÇÃO DO PODER POPULAR!!!

Estamos às vésperas de mais uma eleição em que os diferentes partidos eleitoreiros, seus candidatos, seus projetos e seus slogans vem pedir nossos votos. Fazem promessas, propagandeiam ilusões…

E nós anarquistas organizados politicamente? Como nos posicionamos durante a conjuntura eleitoral?

Para discutir as eleições desde um ponto de vista anarquista, a estratégia de construção do PODER POPULAR e outros elementos da conjuntura eleitoral, convidamos todas e todos para nosso Ato Político!

Mate, rango, bebidas, músicas, biblioteca “a conquista do pão” e boas companhias!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

Elementos da conjuntura eleitoral de 2014 – Opinião Anarquista da FAG

Estamos às vésperas das eleições que definirão os novos governos de turno, a nível estadual e nacional. Governos que independente dos programadas defendidos, jogarão conforme as regras e no marco da lógica do sistema de dominação capitalista na sua atual etapa, a do capitalismo financeiro. Enquanto anarquistas, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Enquanto lutadores sociais entendemos que uma análise cirúrgica da conjuntura eleitoral é necessário e possibilita definir quais são os fatores de peso na formação do atual cenário.

Template Opinião anarquistaJunho de 2013, a disputa de seus significados e alguns elementos da conjuntura nacional

É própria do atual cenário eleitoral a disputa pelos sentidos do que foram as jornadas de luta de 2013 e a tentativa de capturar os vetores ideológicos forjados e legados por essa experiência, de mobilização nas ruas por milhões de pessoas, assim como aquela das lutas no contexto da copa do mundo. São poucas as siglas que reivindicam as jornadas de protesto do ano passado, seja para mostrá-las como exemplo de um massivo descontentamento com relação ao período de governo petista, seja para citá-las como um sinal de que esse descontentamento, apesar de todas as “conquistas” dos governos PT, é contra o atual sistema político que se colocou como um entrave para o encaminhamento positivo da agenda de reivindicações das jornadas.

É nesse sentido que o plebiscito popular para uma nova constituinte foi o grande “chamariz” do PT e de seus aliados. No entanto, na atual conjuntura, tal mecanismo visa apropriar-se da forças das ruas e desaguá-la na institucionalidade, garantindo a conciliação de classes, contendo e mediando o conflito para definir a correlação de forças nos fóruns de disputa política formais. Para nós, esse fato por si só já representa uma derrota política para os de baixo, pois não aponta e nem constrói uma alternativa para além das eleições e do Estado enquanto espaço privilegiado da política.

Contudo, o que temos visto é que predominam disposições gerais de desconfiança e até de rechaço às instituições políticas, por um lado, e, por outro, uma impotência da tática de denúncia e do discurso “esclarecido e racionalista” frente ao poder simbólico das regras do jogo institucional utilizado pelos setores da esquerda que participam nas eleições. Poder simbólico que não deixa perceber nuances programáticas, apostas estratégicas distintas, ideologias de mudança ou de conservação.

10675639_720755494664265_4541295725687600140_nEm que pese nem tudo seja igual, está ausente um projeto político de caráter reformista, com adesão eleitoral, que incida sobre as estruturas de poder da formação brasileira. Se há uma luta da oposição burguesa mais conservadora para quebrar o modelo de gestão neo-desenvolvimentista, que passa pela desestruturação dos instrumentos de Estado para a política econômica, autonomia do Banco Central, metas de inflação – ampliando os controles de mercado – esta não pode ser entendida como o simples ataque a mudanças de fundo realizadas por um pretenso projeto de esquerda que se quer derrotar.

Nesse sentido, a polarização dos candidatos (PT, PSB e PSDB) representa, na verdade, variações administrativas no marco do Estado já que ambos os projetos não fogem dos ajustes exigidos pelas relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro.

No RS, dois projetos em jogo?

20140707por-juliano-antunes-_jas6892No RS, temos visto uma maior polarização em torno das candidaturas de Tarso Genro/PT e Ana Amélia Lemos/PP. Concorrem, dentro das regras do jogo, dois modelos que se representam como mais “puros”, suscitando um imaginário do tipo plebiscitário: se está com o PT ou com o PP. Uma cultura política que desde a nova republica não reelege governadores também é um fator de peso na conjuntura estadual.

Entretanto, é preciso que deixemos de lado esse pensamento binário e enxerguemos elementos que nos indicam que ambas as possibilidades (sem falar nas demais) não representam transformações de fundo para os de baixo.

Com relação ao governo Tarso, há uma série de aspectos que acreditamos importante ressaltar com relação a sua administração e que em certa medida arranharam sua imagem:

1. A repressão aos protestos de 2013/2014 e em particular as perseguições a militantes e organizações de esquerda.

2. Os reiterados protestos e greves dos trabalhadores da educação da rede estadual pelo pagamento do piso nacional que até hoje não foi atendido.

3. A paralisação das demarcações de terras indígenas e a intensificação do conflito entre indígenas e pequenos agricultores na região norte do estado que resultou em 2 agricultores mortos e 5 índios presos durante  mesa de negociação.

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O governo do PT repetiu expedientes que foram consagrados pela “tecnologia da coalizão” exaltada por Tarso Genro. Prevalece em suas práticas de governo um dispositivo de diálogo que procura dissuadir o conflito social, neutralizar nos circuitos da burocracia as pautas de contestação e integrar na gestão auxiliar dos conselhos e gabinetes os movimentos e sindicatos mais dóceis. Do ponto de vista do funcionamento dos aparelhos de repressão se faz distinto o uso mais intenso dos serviços de inteligência e das táticas de dispersão que evitam colisão frontal.

Já em um cenário de governo de Ana Amélia/PP, é impossível não associarmos com a administração da ex-governadora Yeda Crusius/PSDB, ainda que em condições diferentes. O PP (nacionalmente alinhado ao PT) é um partido que tem base forte pelo interior, que representa historicamente as oligarquias rurais e que provavelmente terá relações de força mais favoráveis na barganha que monta a base do legislativo. Trata-se de uma candidatura que conta com a preferência do grupo RBS onde foi funcionária de longa data. Além disso, a truculência com as lutas sociais tende a se intensificar ainda mais. A ascensão da candidata do PP é proporcional as baixas expectativas com reformas sociais e políticas públicas que resultam do “desencanto com o PT”, de uma sensação de ‘menos pior’ que é cada vez mais fraca de sentido.

Entretanto, em que pese em uma conjuntura formas específicas de governar, o Estado do RS tem estruturas do poder que estão fora de causa nestas eleições. Dívida pública que sangra os fundos públicos pra pagar o capital rentista; o poder do agronegócio na economia gaúcha, no desmonte das normas ambientais e sobre a agenda de investimentos em infraestrutura (portos, geradoras de energia) e a guerra fiscal da indústria para se apropriar de recursos do estado (fundopem), são exemplos disso.

Portanto, está fora de questão mudanças de fundo, em que as estruturas mais consistentes do sistema de dominação capitalista sejam colocadas em questão. Apostar no “possível”, nessas circunstâncias, é deixar de construir desde já um processo próprio, um caminho de protagonismo e de organização dos de baixo no marco de um horizonte socialista e libertário.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo

SDC12236Chamar a anular sem fazer prioridade ao trabalho de organização popular é pedir o voto como fazem os partidos integrados no sistema. Não é o voto em si, como mecanismo decisório da sociedade, que é o problema, o problema é para qual estrutura de poder ele funciona. É por isso que nós anarquistas da FAG não estamos em campanha pelo voto nulo. Como já dissemos, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Contudo, do ponto de vista militante, entendemos que nessa conjuntura eleitoral e para além dela, precisamos construir laços de luta, de unidade e uma perspectiva programática desde o nosso local de trabalho, moradia e estudo.

O período em que vivemos demanda a articulação de todo o espectro das lutas sociais que confrontam o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa mínimo de soluções populares. Construção de unidade dos de baixo, de baixo para cima e que não se confunde com unidade entre partidos, frentes eleitorais ou candidaturas operárias. Criação de um Povo Forte para impor na cena nacional uma nova correlação de forças e que aponte um projeto de transformação social. Em síntese, política anarquista para além do voto e das eleições burguesas.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo!

Pela construção de uma inter-setorial dos combativos!

Nem direita, nem governismo! Forjar um programa dos de baixo!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG (Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB)

Elementos da conjuntura eleitoral 2014 – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

Eleições: A saída à esquerda não é nas urnas, mas nas Ruas!
Elementos da conjuntura eleitoral – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

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O contexto de eleições em nosso país precisa ser analisado a partir de alguns elementos da conjuntura brasileira que procuraremos apontar na presente análise. São aspectos que acreditamos relevantes e em certa medida condicionantes de uma compreensão mais rigorosa das eleições e de algumas conclusões libertárias que no final apontaremos.

Quando o “Ganha, ganha”, pode se tornar o “Ganha, perde”

O Partido dos Trabalhadores já governa o país há 12 anos, desde 2002. Sua fórmula tem sido a de fortalecer o financiamento aos grandes capitalistas “tupiniquins”, bem como a expansão do crédito pessoal, que por tabela fortalece o mercado consumidor. O governo busca fortalecer os grandes capitalistas e, de quebra, cria empregos e melhora as condições de consumo da massa trabalhadora. Para completar temos ainda programas sociais que atendem a massa, a exemplo do Bolsa Família – “36 milhões de brasileiros foram tirados da extrema pobreza” (DILMA, 2014) e o Mais Médicos – que segundo o governo cobriu 50 milhões de pessoas desassistidas. Toda esta forma de governar tem sido sintetizadas por nossa corrente, no bojo da CAB, como o neodesenvolvimentismo, porque representa uma nova busca pelo desenvolvimento de alguns setores da economia como sua inserção na economia internacional por meio da injeção de recursos públicos (isto é mais intervenção que no período neoliberal), todavia com certa repaginação, pois não podemos comparar essas com as políticas desenvolvimentistas de outrora, afinal o Estado entra mais como financiador do que como agente direto do desenvolvimento, nesse sentido privatizações e parcerias público privadas vigentes da época neoliberal se mantém, quando muito ganham outra roupagem.

O que temos visto, nos últimos anos, são sintomas de certo “cansaço” deste modelo de desenvolvimento e crescimento. Falamos de alguns sinais desse esgotamento em nosso último documento:

“Em relação ao desenvolvimento capitalista, o PT atingiu alguns índices que permitem certa estabilidade e crescimento, como os 4,6% de desemprego, que permitem certa fluidez à economia; afinal, o consumo de massas é um de seus carros-chefes. Todavia, a não distribuição real de renda, ou seja, a socialização da miséria, gera índices de endividamento preocupantes, que prometem desacelerar o consumo de massas e o mercado imobiliário, com um grande risco desse endividamento se tornar inadimplência. As grandes obras e os megaeventos têm prazo de validade, e, quando finalizados, prometem desacelerar ainda mais a economia. O agronegócio, como apontado, está sujeito ao mercado internacional e, por isso, sensível às oscilações econômicas externas. Resta saber, também, até que ponto os bancos públicos suportarão manter o crédito no mercado, sem que o Estado se endivide ou tenha suas contas pressionadas, em especial no que tange aos programas sociais.

Como vemos, temos um modelo econômico que está distante de uma perspectiva transformadora; ele não pode ser assim caracterizado sequer em uma perspectiva reformista. Mesmo no que diz respeito ao equilíbrio capitalista, ele parece estar sustentado em “bases” instáveis, sujeitas a desequilíbrios. ”(CAB, 2014)

Sem ser taxativos e sem buscar fazer do alarmismo e catastrofismo elementos da análise, temos de ficar atentos a alguns movimentos do capitalismo brasileiro, pois certos sintomas de desaceleração e certa instabilidade econômica despontam na realidade, e sabemos os impactos que têm na conjuntura política do País.

O próprio governo de turno (Dilma-PT) , e seu programa eleitoral apontam que seu pilar é, e continuara o mesmo

(…)A competitividade produtiva será atingida por meio dos investimentos em produção e consumo de massa, investimentos em infraestrutura social e econômica, na construção de um Brasil sem Burocracia e nas áreas de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, construindo uma sociedade do conhecimento.”(DILMA, 2014)

Deste modo, não podemos ser otimistas, no sentido de esperar algo diferente nos próximos anos, a despeito de certa desaceleração da economia, teremos mais do mesmo. O próprio governo admite que o PIB que tinha a expectativa de crescimento de 2,5%, deve crescer no máximo 1,8%, o mercado e instituições financeiras apontam para 1,5% (os mais pessimistas instrumentos financeiros 0,52%), sendo que o PIB teve um crescimento de 1,03% no período da crise mundial (2009), como vemos estamos com nossa economia com taxas muito próximas do período de recessão. Claro que esta é uma tendência global, a Economia mundial deve ter expansão de 2,8% este ano. Mais pessimismo se aponta com a dita “recessão técnica”, que aponta para encolhimento da economia do Brasil no primeiro trimestre de 2014, de menos 0,6%. A expectativa de crescimento do Banco Mundial para os países em desenvolvimento em 2014 foi reduzida para 4,8%, ante uma expansão de 5,3% esperada no relatório divulgado pelo órgão em janeiro. Todavia, há de se destacar que dos BRICS o Brasil é melhor somente que a Rússia, nesse sentido passa a ter um desempenho econômico fraco mesmo quando comparado com países de mesmo perfil.

Com todos estes resultados preocupantes, o que vemos nas campanhas, e no próprio programa do PT, é a reafirmação do que foi feito e alguns “avanços” que serão feitos na mesma direção. Parece que viveremos do passado nestas eleições, afinal seus principais adversários são o PSDB, que representa o que de pior temos na política, e o PSB, uma “terceira via” que não traz nada de novo e já aponta que governará em prol do capital. Deste modo não podemos esperar mudanças vindo destes setores, ao menos mudanças positivas no que se refere a população e a economia do País. Assim, o processo eleitoral tem pouco a oferecer nesta área, de um lado o PT que promete reeditar aquilo que vemos patinar, do outro aqueles que governaram o País por anos, e tem governado alguns Estados (exemplo do Paraná, estado que Richa quebrou literalmente, o Estado está sem empréstimos federais e sequer tem dinheiro para abastecer carros oficiais).

Os principais setores da economia nacional sofrem para crescer. O setor automobilístico enfrenta significativa recessão, a produção de veículos é a principal queda na indústria, aponta IBGE no mês de maio de 2013. Em comparação com maio de 2013, setor de automotores recuou 20,1%. A produção industrial registrou terceira queda seguida em maio, com -0,6%. A venda de veículos no primeiro semestre de 2014 caiu 7,33% em relação ao ano passado, aparecendo como pior resultado desde 2010. O varejo tem desacelerado, e dos 8,4% do ano de 2012 (crescimento foi de 2004 a 2012), tem como estimativa para 2014 4%, segundo Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). No setor imobiliário vemos significativa desaceleração este ano também, se em 2013 o financiamento imobiliário aumentou 34% em relação ao período anterior, este ano vemos acrescidos no setor meros 7%, a estimativa de crescimento é de 15% (menos da metade), de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Se o consumo de massa é um dos pilares para o crescimento, tudo indica que está em um processo de decadência, pois os principais setores se encontram em franca desaceleração, deste modo entramos em um momento de enfraquecimento da economia. Tal queda nas taxas de crescimento são reflexos dos índices de endividamento da população, pois na medida em que o crescimento e aquecimento do mercado é fruto da expansão de crédito, e não dos ganhos reais, a tendência que se confirma é o endividamento das famílias.

Segundo Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, a situação em 2013 era a seguinte: 63% da população brasileira possui algum tipo de dívida e 20% de contas atrasadas; 76% destas pessoas têm dívidas no cartão de crédito e o juro médio desse tipo de conta, no Brasil, atualmente se encontra no patamar dos 130%. A inadimplência ainda era baixa, fechou 2013 em 2,33%. Recentemente, um dado no mínimo preocupante revelou que 57 milhões de brasileiros já se encontram inadimplentes, destes 60% dos endividados têm contas atrasadas que superam toda a renda mensal. Outro dado aponta que 53% das pessoas com dívidas possuem até duas contas não pagas no prazo. É necessário observar que este número representa que, do total da população brasileira com 18 anos ou mais (144 milhões de pessoas), cerca de 40% estão inadimplentes. Um cenário de crise não se estabelece devido ao desemprego baixo que gira, de acordo com dados do IBGE entre 4,6% e cerca 5%, que garantem um cenário de pleno emprego.

Como podemos explicar esta desaceleração? Bom já havíamos apontado em uma análise anterior que este modelo de crescimento não era sustentável, em seu sentido de gerar um ciclo de crescimento. Pois nota-se que desde que o PT assumiu, colocou em curso seu projeto neodesenvolvimentista, baseando-se no aumento da oferta de crédito e não da distribuição de renda, o que logicamente leva a população ao endividamento, estagnando, ou ao menos diminuindo a capacidade de crescimento. Anteriormente já havíamos levantado dados recentes que apontam a situação do aumento dos salários no Brasil

“No que tange ao ganho real nos salários, este é muito pequeno no atual cenário. Apesar de que 84,5% das categorias que são monitoradas pelo DIEESE tiveram aumentos acima do INPC, apenas 0,6% receberam aumentos acima de 5%. A maior fatia recebeu entre 0,01% e 1%, somando 34,8% destes 84,5%. Nesta mesma pesquisa, constata-se que 64% tiveram um aumento da ordem de 0,01% a 2% acima do INPC. Em 2012 houve a maior taxa de aumentos acima de 5% do INPC. Isso atesta que o aumento no consumo se deu com a ampliação do crédito e corrobora a afirmação de que não há uma distribuição de renda significativa no país.” (CAB, 2014)

No que se refere o panorama da distribuição de renda encontramos também um quadro não muito positivo:

Enquanto isso, a maior parte da população brasileira continua vivendo com menos de um salário mínimo: trabalhadores com 15 anos ou mais de idade que ganham menos de um salário mínimo somam 26,080 milhões, isso representa que 43% da famílias brasileiras apresentam uma renda per capita inferior à um salário mínimo. (2)

Estes dois elementos quando se defrontam, demonstram a crueldade da realidade brasileira: enquanto 124 pessoas concentram mais de 12% do PIB, 26 milhões de trabalhadores vivem com menos de um salário mínimo por mês.

Mas para manter a aparência de “país rico”, o governo e a mídia disseminam o conceito de “classe média” como se houvesse mesmo, na prática, esse segmento que se diferencia dos pobres e miseráveis. Para o governo, essa “classe média’ abrange a população com renda per capita de R$ 291 até R$ 1019, ou seja, mais da metade da população brasileira pertence à classe média. Mas na prática, o que isso significa? O governo está mesmo redistribuindo a riqueza? Sim e não. Esta renda média está muito abaixo daquilo que o DIEESE aponta como necessário para se ter acesso aos direitos fundamentais, a instituição estipula que o salário mínimo brasileiro deveria ser de 2.621,70 R$ (2013). Percebe-se que, na realidade, o que acontece é que o governo redistribui a miséria. Segundo o IPEA, a pobreza reduziu no brasil de 32,4% para 22,6%, incluindo mais essa parcela da população na classe média, mas os mais ricos continuam da mesma forma, acumulando. Vejam: 1% da população mundial detém 43%da riqueza do globo, e 43% detém 2% da riqueza. (Banco Credit Suisse); apenas 6% dos brasileiros detém meios de produção próprios (IPEA); ou ainda: 1% dosproprietarios de terra brasileiros detém 45% da terra, 90% dos proprietários detém 20%(INCRA). Assim o que aparece como distribuição de riqueza nas afirmações do governo, na verdade se configura como uma dispersão da renda dos mais pobres, enquanto a acumulação dos mais ricos mantém os mesmos padrões, ou mesmo se intensifica, afinal com o crescimento da economia brasileira não contemplando a desconcentração de riqueza, acaba por estes segmentos se afastarem cada vez mais, afinal o crescimento dos mais ricos é assombrosamente maior. (CALC, 2013)

Como vemos, para além da distribuição de riqueza relacionada à população mais pobre, por meio de programas sociais (cujo o carro chefe é o bolsa família), não existe uma desconcentração real de riqueza, o que impede um ciclo contínuo de crescimento.

Em contra partida, os setores dominantes sentem a desaceleração, com um crescimento menor e com menores lucros (menores porque não batem recordes). Entre os bancos vemos na lista de maiores lucros, o Banco do Brasil, um banco público com lucro líquido de R$ 15,75 bilhões em 2013, ficando em primeiro lugar. O que demonstra que a oferta de crédito ainda é responsabilidade do Estado. Na sequência vem o O Itaú Unibanco com lucro líquido contábil de R$ 15,696 bilhões, acima do resultado de R$ 13,594 bilhões registrado um ano antes. Em terceira posição está o Bradesco, com um lucro líquido contábil de R$ 12,011 bilhões em 2013, valor acima dos R$ 11,381 bilhões obtidos no ano anterior. Não à toa vemos a pressão para o aumento da taxa Selic, a taxa básica de juros, pois como vemos tais bancos garantem um bom percentual de seus lucros no Brasil. O Santander, quarto nesta mesma lista, garante quase ¼ de seu lucro somente no Brasil.

As classes oprimidas veem seu poder de compra diminuir com seu endividamento e com a inflação corroendo-as. A resposta para conter a inflação tem sido aumentar a taxa de juros, assim de um lado ou de outro quem “perde” é a população (com a alta da inflação ou com a alta dos juros), afinal investir no aumento da oferta não é do interesse dos grandes capitais financeiros. Pois no mesmo momento que governo declarou a diminuição do crescimento do PIB, alertou para um aumento na estimativa da inflação para o ano. Mesmo com desaceleração em junho, ainda batia o teto (de 6,5%) atingindo um acumulado de 6,52% nos últimos 12 meses. Em julho sofre ligeira desaceleração e se manteve por pouco, mas ainda acima do teto 6,51%.

Como vimos o governo continua apontando como modelo de crescimento a expansão de programas sociais, infraestrutura e a tal “competitividade produtiva”. Não vemos nenhum apontamento que o governo ira radicalizar na política de distribuição de renda ou ainda no investimento em setores estratégicos para fortalecer a indústria nacional realmente. O que vemos é que temo uma equação complexa a resolver, como manter o crescimento no consumo sem aumentos reais na renda? Como ampliar ainda mais o consumo e frear a inflação, se para conter a inflação o governo aumentou a taxa de juros para frear um pouco a procura? E mais como modernizar a indústria e o parque produtivo sem investimentos massivos na área ciência e tecnologia (o ápice de investimento é no ciência sem fronteiras, e não na montagem de equipamento em de C & T em solo nacional)? Como segurar capitais sem um disciplinamento dos mesmos (isto é, regulação, pois não há nacionalismo que faça capitalistas segurar o dinheiro em nossa economia)?

É inviável pensar em como atrair mais capitais produtivos para o País com uma taxa de juros de 11%, que favorece o capital financeiro, não à toa a venda de títulos públicos (títulos de dívida) bateu o recorde de R$ 57,97 bilhões. Não à toa a dívida pública volta a crescer 3,4%, chegando aos 2,12 trilhões. Não à toa vemos que as previsões para indústria são de encolhimento de 0,67% (pesquisa Fócus) neste ano de 2014 (a três meses a indústria encolhe). Entre os BRICS deixamos de ser a 4º economia com mais investimentos para passar a ser a 7º.

Qual solução apresenta o Governo? Por óbvio o aumento do crédito, a exemplo inverso do crescimento econômico os desembolsos do BNDES sobem 35% no 1º bimestre. No período, desembolsos chegaram a R$ 28,5 bilhões. Desembolsos para o setor de infraestrutura tiveram aumento de 82%, não à toa vemos que estes são os setores que mais financiam campanhas eleitorais. Não por acaso as contas do governo têm pior resultado para o 1º semestre em 14 anos.

Em junho, houve déficit de R$ 1,94 bilhão, pior resultado desde 1997. A arrecadação tem o pior crescimento desde 2009, isso resultado de desonerações fiscais, em especial a automóveis e eletros. Outro caminho encontrado pela presidente, e citado em seu programa como mais uma solução para o crescimento, são as parcerias público privadas, onde o governo entra com o financiamento (via BNDES), e o setor privado com a “gestão eficiente”, e é claro o lucro, tudo em prol do desenvolvimento. Entraram na onda da privatização portos, aeroportos, rodoferrovias, rodovias e Hospitais. Todas estas medidas para buscar manter as classes dominantes satisfeitas, e por outro lado impedir que as classes dominadas enfrentem o desemprego e achatamento ainda maior em sua capacidade de consumo.

Como vemos a economia enfrenta turbulência, e as classes dominantes ainda continuam a expandir seus ganhos, já ganharam mais, mas continuam ganhando. As classes dominadas vem perdendo o acesso a uma das únicas conquistas que obtiveram junto a este governo: o consumo. Têm percebido pouco a pouco perda de seu poder de compra, afinal endividados não tem condições de contrair mais despesas. Perdem com a alta da inflação, perdem com a alta dos juros, perdem quando o Estado se endivida e investe menos em áreas sociais, o mesmo ocorre quando o Estado arrecada menos, de um jeito ou de outro perde, e paga as contas do neodesenvolvimentismo. Tais aspectos não poderiam deixar de influenciar o panorama político. Afinal quando a política do “ganha-ganha” não é possível, sabemos quem tem de “perder”.

Acabou a festa do crescimento, acabaram os amigos…

Vemos junto das condições de instabilidade econômica, despontar os primeiros questionamentos a cerca do governo. O consenso de classes forjado pelo PT em seus 12 anos de governo, parece se abalar frente a incapacidade de manter um cenário de crescimento econômico. Se este governo já teve avaliações positivas acima de 60%, chegando a 68% em Dezembro de 2010, e mesmo em março de 2013 ainda contava 63% de aprovação, atualmente sua avaliação caiu a quase metade disso, pois em 4 meses a aprovação ao governo caiu nove pontos, de 43% para 34%. Ainda segundo a mesma pesquisa do Ibope (abril) a desaprovação à maneira de Dilma governar subiu de 43% para 48%. Segundo pesquisa do mesmo instituto realizada em julho, gostariam que o/a presidente mudasse totalmente o governo do país: 29%; mantivesse só alguns programas, mas mudasse muita coisa: 41%; fizesse poucas mudanças e desse continuidade para muita coisa: 18%; desse total continuidade ao governo atual: 10%; e não sabe / não respondeu: 2%. Essa desaprovação ao governo Dilma, que possui influência indireta nas eleições, não consegue, contudo, ser captada por Aécio, mas por Marina, uma suposta alternativa, que como veremos não pode ser encarada como uma “saída”

Como dito, os problemas para reprodução do ciclo de crescimento, e a desconfiança na política do governo já tem seus resultados eleitorais, que se não retiram a estabilidade do governo, fazem o consenso em torno do PT ser atingido. Percebe-se o quão frágil são as conquistas petistas, que garantiram crescimento aos de cima, e acesso ao consumo e emprego (de baixa qualidade diga-se) aos debaixo, que ao demonstrar seus primeiros sinais de cansaço devido o modelo de desenvolvimento adotado, já mostra que aquilo que era tão consensual, talvez não o fosse tanto assim. São os frutos da engenharia do pacto social montada em todos esses anos de governo petista que, ao priorizar e fazer de centro de sua estratégia conchavos e alianças com os setores dominantes acabou deixando de lado a mobilização e organização dos de baixo, enterrando de vez qualquer perspectiva de transformação Socialista.

Sem crescimento econômico: debandada dos de cima… Sem garantia de Direitos: Insatisfação dos de baixo!

Como apontamos, a diminuição na taxa de crescimento aliada a fatores de coerência ideológica tem gerado tensionamentos por parte dos setores dominantes ao governo petista. Muitos deles feitos por meio da mídia, que ataca o PT e busca ampliar o clima de instabilidade, buscando favorecer a “oposição” ao governo, que agora promete modernizar a base produtiva com uma reforma tributaria, isto é sempre menos Estado, no que tange a gestão da economia e direitos, afinal não estão falando de uma reforma tributaria para implementar impostos progressivos. Mesmo a direita entrou na onda de criticar a copa (como alguns apontavam o General Figueiredo não fez a copa), e contrastando os estádios com serviço público.

Como apontamos anteriormente também, se não houve uma mudança radical na distribuição de riqueza também não houve atendimento à população no que tange aos serviços fundamentais. Se observarmos os principais serviços de atendimento a população: educação, saúde, transporte e saneamento, os mesmos não passaram por mudanças significativas, esperadas de um partido reformista. Nem podia ser diferente, se olharmos o orçamento de 2014, 42% são destinados à dívida pública. Somando isso à Lei de Responsabilidade Fiscal, torna-se difícil discutir qualquer mudança, ou reforma que seja. Não surpreende a privatização estar em uma crescente. Vemos recentemente esta noticia: Fusão da Anhanguera e Kroton cria a 17ª maior empresa da Bovespa

“Nova empresa passa a ter valor de mercado de mais de R$ 24 bilhões. Associação cria empresa com quase 1 milhão de alunos.”
(…)
De acordo com o CFM, do investimento federal total de R$ 47,3 bilhões em 2013, os R$ 3,9 bilhões da saúde representam 8,2%. Esse percentual, segundo a entidade, é menor que as fatias destinadas aos ministérios de Transportes (23,3%), Defesa (18,6%), Educação (16%) e Integração Nacional (9,3%).

Como pode-se notar a educação no Brasil continua a ser um negócio, e o aumento do investimento público se dá no setor privado. No ensino superior, por exemplo, veio por meio do PROUNI, que não é nada mais que a privatização de vagas públicas (estima-se que cada vaga no PROUNI custa cerca de 3 nas Universidades públicas). Ainda quando vamos olhar em como se encontra a educação, nos defrontamos com o seguinte panorama

Quando tocamos a situação das universidades, temos uma situação ainda mais crítica no que tange à administração do serviço por parte do poder público. Apenas 11% da população entre 25 e 64 anos de idade atingiu esse patamar educacional, quando o recomendável para nações desenvolvidas é, pelo menos, 31%. Atualmente, ao menos 74% dos estudantes do ensino superior têm de recorrer ao ensino privado, pois as instituições de ensino superior privado correspondem à maior parte deste serviço no Brasil. São 2.112 instituições privadas para 304 públicas. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Segundo pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa, os níveis de alfabetização e alfabetização funcional melhoram seu desempenho de acordo com a renda.

Percebe-se que o produtivismo imposto à educação brasileira por órgãos internacionais nos anos de neoliberalismo ferrenho, combinado com a falta de atenção naquilo que tange às políticas de bem-estar social (em que renda é somente um elemento) e com uma universalização que não representou aumento suficiente em verbas (por consequência em ganho estrutural e pessoal), gerou uma estrutura sobrecarregada (salas lotadas) com número pequeno de professores, acabando por se converter em uma educação massificada de péssima qualidade. Nosso país não somente tem uma educação de péssima qualidade, como, por conta da expansão via universidades privadas, é incapaz de promover o desenvolvimento tecnológico, pois as privadas não investem em pesquisa e possuem um frágil sistema de produção de conhecimento. O Brasil é responsável por meros 2,7% da produção científica no mundo, o que é pouco para uma das maiores economias mundiais. Não é à toa que somente quatro universidades brasileiras estão entre as 100 mais bem avaliadas dos BRICS. Nessa área, a privatização se estende a todos os níveis, do básico ao superior, seja por meio da privatização de receitas, da estrutura pública ou pela liberalização que transforma um direito em mercadoria.

No recém aprovado PNE (Plano Nacional de Educaçao), grande parte da discussão ficou em torno de orçamento, os famosos 10% do PIB, e 100% do Pré-Sal. Se estas discussões são importantes, não podemos esquecer de pensar na qualidade e gestão da educação, justamente o que mais preocupa no PNE que preve a privatização do sistema de educação de cima a baixo, desde a educação infantil até a pós graduação.
Na Saúde não temos melhores situações em pesquisa recente, realizada pelo TCU aponta que 64% dos Hospitais encontra sempre superlotados, 81% das unidades tem falta de médicos, e 73% das instalações são inadequadas. Em pesquisa ainda deste ano (2014), constatou-se algo que não soa nada estranho frente a este panorama, 93% da população se encontra insatisfeita com o SUS e convênios privados. Recentemente ainda encontrávamos o seguinte cenário

Segundo pesquisa de 2011, cerca de 70% da população se encontra insatisfeita com os serviços prestados pelo SUS. Esse número se refere àqueles que, frequentemente, buscam o serviço. A principal reclamação é de falta de médicos, seguida da demora em agendar consulta ou exame na rede pública (IPEA), que podem chegar, segundo algumas fontes, a 9 meses. Segundo outra pesquisa, cerca de 60% da população usa somente o SUS, enquanto outros 30% combinam o uso do SUS com a saúde privada. Na prática, cerca de 90% da população depende dos serviços do SUS. Ele não obtém aumento real em sua suplementação desde 1994, pois, a inflação no setor de saúde acumulada na última década, de 83,3%, acabou por absorver os 32% de aumento em subsídios no setor. Vemos o atual governo romper somente na retórica com a antiga política privatizante, impondo-a por meio de medidas mascaradas, como no caso das empresas públicas de direito privado (como a EBSERH), que abrem espaço para as privatizações (hospitais de porta dupla) e promovem a mercantilização da saúde (não só no sentido comercial, mas também de submetê-la à lógica da administração empresarial em detrimento do bem-estar. Em nível estadual temos as suas equivalentes, as Organizações Sociais (OSs). Somente apontando esses dados preliminares, sem nos determos à fundo nas estatísticas relacionadas à saúde pública brasileira, é notável que a sua situação é catastrófica.

Ainda no que se refere o saneamento básico, tema diretamente ligado a Saúde Pública, dos 100 maiores municípios, 34 não tem plano de saneamento estima-se que 35,5 milhões de pessoas não acessam o saneamento básico.

No que se refere aos transportes, dos 50 bilhões adicionados por Dilma no orçamento para área, parece que pouco se investiu em transporte para a população. Acabou que a única conquista real da população foi a redução da tarifa nas mais de 100 cidades, e algumas cidades que passaram a garantir o passe livre por meio da força das ruas. Em geral o transporte continua na mão das velhas máfias do transporte, mais do que isso, esse orçamento suplementar caiu na mão de velhas oligarquias. O Cade realizou denuncia de cartéis nas obras de metro em São Paulo, Distrito federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Como vemos a situação continua igual ou mesmo pior.

Tais dados revelam a realidade de um Brasil que ocupa a posição de 46° lugar em novo índice que mede a qualidade de vida. O Indicador global IPS avaliou ‘progresso social’ em 132 países. Brasil foi o melhor dos Brics, mas foi superado por outros latinos. O país mais bem-sucedido da região foi a Costa Rica, que apareceu em 25° lugar. Em seguida, vieram Uruguai (26°), Chile (30°), Panamá (38°) e Argentina (42°). Como vemos não necessariamente “País Rico é País sem Pobreza” pois, mesmo em índices de instituições burguesas, aparecemos atrás no que tange a qualidade de vida de países com economias muito menores.

Igual não é, mas também não cai muito longe…

Parte da esquerda desqualifica seu próprio debate apontando que o PT segue a mesma cartilha neoliberal do PSDB. Entendemos que tais afirmativas, para além de serem de certo modo inverdades, desqualificam a esquerda que acaba por afirmar que a realidade promovida pelo PSDB, de privatizações estrito senso, e menos participação do Estado na economia são idênticas por parte do governo PT. Não se pode comparar o atual governo ao período do PSDB, quando somente de 95 a 2000 o desemprego cresceu 155,5%, e o investimento público na geração de emprego declinou 32,2 %. Soma-se que em 2000 o desemprego batia os alarmantes 15%, dos quais hoje estamos distantes. A política de protagonismo econômico do Brasil frente a economia mundial também é um diferencial. O Banco do Brics é um de seus últimos exemplos. A lógica ainda é a lógica capitalista, por óbvio, em especial porque o multilateralismo brasileiro pouco leva em conta as alianças políticas, mas o pragmatismo econômico (basta ver que Rússia e China estão longe de serem países democráticos), e visa em especial criar zonas de influência do imperialismo brasileiro.

Todavia vemos que a lógica privatizante permaneceu (agora sob a égide das PPPs), e que o investimento público, como demonstramos, não atingiu aquilo que espera-se de um governo reformista. Deste modo destacar diferenças não significa capitular ao “melhorismo” do PT, nem mesmo defendê-lo, mas compreender uma reconfiguração dos inimigos de classe. Ou seja, não há como negar que o governo PT se preocupou, de alguma forma, em favorecer a parcela mais precarizada da população brasileira, porém, sempre com políticas dualistas, onde os pobres ganham um pouco e os ricos ganham mais. Exemplo disso são os programas sociais que o governo PT desenvolveu durante sua gestão, como o Minha Casa Minha Vida ou o Minha Casa Melhor que, claramente, são políticas de estímulo ao consumo que visam aquecer o mercado.

Outro tema que vem aproximando o PT do PSDB é a forma como vem sendo tratados os movimentos sociais. Pois a repressão aos mesmos se tornou uma constante, como a judicialização da luta política. Os casos de São Paulo (2 presos) e do Rio de Janeiro (23 indiciados) são exemplares, e, se não são de responsabilidade direta do PT, são realizados com sua benção. Não é raro a guarda nacional e o exército serem acionados para combater movimentos. E mais, o PT foi um dos partidos que mais se esforçou por aprovar o projeto de lei que visava conter os protestos, aderindo mesmo ao projeto da bancada do PDT para acelerar a criação de dispositivos legais para reprimir manifestações.

Cabe mencionar que o próprio exército vem sendo mobilizado para investigar manifestantes, algo que desde a ditadura não se via. Parece que estamos a relembrar a onda de terror e medo de investigações massivas, que chegam a absurdos para condenar militantes. A própria anistia internacional interveio no tema dos protestos relacionados à Copa, apontando que o Brasil vinha infringindo o direito a livre manifestação. Isto parece um contrassenso em um governo que tem sua presidente saída dos quadros da luta contra a ditadura, e mais absurdo quando vemos o cinismo da mesma: “Na minha época eramos presos por fazer política”. Tem se tornado lugar comum, os movimentos sociais serem tornados caso de polícia, e temos visto o mesmo tipo de montagem de “farsas” contra movimentos, dignos das épocas mais reacionárias de nosso país, botijões da gás que viram explosivos, livros de determinadas ideologias (em especial anarquistas) que se tornam prova de crimes (como na invasão do Ateneu Batalha da Várzea), mais recentemente ainda camisas, bandanas e suvenires de banda se tornaram prova de crime.

Para criminalizar o protesto, o PT e o PSDB vem contando com o apoio da mesma mídia que o PT acusa de golpista (e realmente o é até hoje, o wikileaks recentemente revelou documentos que revelam ligações de agentes da Globo e Folha de São Paulo a cônsules americanos). Mídia que os governistas apontam como sua principal oposição. Todavia há de se lembrar que se as concessões continuam na mão dos oligopólios da informação, é com a anuência do PT. Governos como o de Chaves e Kichiner revisaram tais concessões. Todos estes processos de criminalização buscam silenciar aqueles que denunciam o “bem estar” tupiniquim, criado por um governo que concede muito aos de cima, e que cede pouco aos de baixo, que precisa se comparar o tempo todo àquilo que existe de pior na política institucional para se situar a esquerda.

Não tem existido deste modo menor constrangimento por parte do governo do PT na montagem e sustentação de farsas (é o caso de Tarso no RS) contra os movimentos sociais e na intensificação da repressão e organização de uma máquina de repressão aos movimentos sociais. A criação de bodes expiatórios como mascarados, black blocs, “fascistas” etc., se mostra como a faceta de farsas criadas para abafar as vozes descontentes, afinal a população deve aceitar resignada que o melhor que podemos alcançar em matéria de mudança social é o PT, e que qualquer oposição fortalece a oposição tucana, isto, claro, na visão do governismo. Estas farsas, que sim podem ser aproximadas (guardadas as proporções) aos tempos tucanos, e mesmo dos “anos de chumbo”, de alguma maneira obtiveram êxito em certo esvaziamento das ruas. Porém se a mídia consegue cumprir o papel de confundir, e busca esvaziar as ruas elegendo novos inimigos para colocar no lugar das classes dominantes, criando um antagonismo entre população e militantes/ativistas, estabelecendo as urnas como lócus da política, por outro vemos que o descontentamento e concordância com a necessidade de mudança não muda.

Temos de observar ainda que em matéria de direitos humanos, este governo já firmou seu pacto com os setores mais conservadores, demonstrando que não podemos esperar nem as tímidas mudanças sociais que ensaiou o Uruguai, onde se descriminalizou o aborto e o uso da maconha, e mais deixando voltar a tona pautas de direita como internação compulsória para usuários de drogas e a malfadada “cura gay”. O PT é conivente com tais absurdos, pois nos bastidores Dilma já acalmou alguns dos setores mais conservadores da sociedade, (a exemplo de seu “pacto” com os neopentecostais) comprando seu apoio ao trancar pautas relacionadas a liberdades civis e direitos Humanos.

Já não nos defrontamos com o momento em que 8 em 10 brasileiros apoiavam as manifestações (Datafolha, 2013), que dois milhões saíram as ruas, em um contexto onde ocorreu uma manifestação a cada 3 dias na paulista (CET, 2014), não podemos dizer que a população está “acomodada” com a situação. Em uma recente pesquisa mostrou-se que se 73% dos paulistas vêm mais prejuízos do que ganhos nas manifestações, ainda sim 52% dos mesmos apoia as mesmas (Datafolha, 2014), cabe destacar a que pesquisa foi realizada no primeiro dia da greve de ônibus. De São Paulo, Estado mais rico em pesquisas do tipo, vemos que com o início da Copa caem 61%, mas que por outro lado temos 14,5% mais manifestações que em 2013 no primeiro semestre. O que podemos apurar disso, é que se as manifestações estão menores, se tornaram frequentes e parte do cotidiano, o “senso comum” já as compreende como parte da vida política, e isso podemos entender como uma mudança ideológica significativa na consciência dos brasileiros.

Se a massa saiu às ruas, os velhos movimentos ganharam nova força em uma conjuntura ideológica mais favorável, vimos greves massivas, sem teto, etc. Por outro lado vemos uma confusão instaurada pelos meios de comunicação, endossadas por nossas personalidades políticas, que demonstram que se não existe uma homogeneidade entre PT e PSDB, as classes que os mesmos representam (ambos disputam a capacidade de representar as classes dominantes) tem uma mesma preocupação, assim passam a existir muitos pontos de contato, talvez o principal é de que os poderosos não gostam da organização e luta dos de baixo, e que seu trato é o mesmo, cooptar quem se pode cooptar, reprimir quem não concordar. Não é à toa que o candidato à presidência do reacionário PSDB (que tem em seu seio desde narcotraficantes, a membros da Opus Dei) não tem problema algum em colocar: “Política e administração pública é você copiar as coisas que dão certos e aprimorá-las. […] Não tenho o menor constrangimento de mantê-los e aprimorá-los [os programas socias do PT]“. Como vemos escolhemos no máximo com qual “molho” vamos ao fogo.

O problema é da democracia burguesa, e não dos partidos em questão, salvaguardadas as diferenças, ambos terão que manter a “ordem”, sem ao mesmo tempo alterar nada de fato, pois não se pode distribuir direitos sem mexer na concentração de riqueza. Isso ficou claro nos dividendos políticos gerados na “sala de cima” da política pelo junho de 2013: mais repressão, fortalecimento do aparato militar, farsas e mentiras da mídia encomendadas por estes senhores e senhoras e claro mais recursos públicos paras as quadrilhas que se associam ao poder público.

Uma “Nova Velha” Alternativa

A “fatalidade” da queda do avião de Campos, abriu espaço a uma “nova” e ao mesmo tempo velha conhecida do eleitorado, Marina Silva. Dirigente da Rede Sustentabilidade, sigla que não foi legalizada, como herdeira natural de Campos assume a cabeça da chapa liderada pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro – cujo socialismo resistiu somente na sigla). A fraqueza do PSB e seu programa fica eminente, na medida em que cede sua sigla a uma “forasteira” no partido (afinal Marina apenas aluga a sigla por seu partido, a Rede, estar ilegal) na eminência do sucesso eleitoral. Isso tanto procede, que quando o chefe da campanha de Campos padece, tão logo o PSB anuncia Marina como nova candidata a presidência.

Não podemos deixar de lembrar que Marina, é uma velha novidade, na medida em que fez parte do atual governo. Mas as semelhanças com o passado, não param por ai. Se temos como “velhas” alternativas o PT de Dilma (mesmo lugar da onde saiu Marina) e o PSDB de Aécio, e como novidade a Marina da Rede (travestida de PSB), nos bastidores da política, a realidade é a mesma. Marina tem como grande financiador o maior banco privado do País: o Itaú. Conta com Neca Setúbal como sua estrategista, nada mais nada menos que a herdeira da rede bancária. Como já discutimos, sem enfrentar o capital financeiro que morde boa parte dos recursos orçamentários do país (com a arrolagem da dívida pública), fica difícil pensar em mudanças quaisquer. Quando tem-se o capital financeiro pagando a conta de uma candidatura, é eminente que esta candidatura em nada rompera com o status quo.

Outra mostra de que Marina é mais do mesmo fica por conta de sua prontidão em abrir mão de compromissos históricos seus e de sua legenda (no caso a Rede e não o PSB), que são com a ecologia e a tal sustentabilidade (conceito tão disputado que sem uma longa discussão pouco define, atualmente). Marina já se dispôs a apoiar e financiar o setor do agronegócio (supostamente seus inimigos históricos na pauta ambiental). Se aquilo que era o “coração” do programa de seu partido já se esvaiu na eminência de uma vitória eleitoral, no caso a suposta “intransigência” da ambientalista na defesa do meio ambiente, não podemos esperar que aquilo que está em um segundo plano resista. Deste modo temos uma terceira via que renuncia seu “programa” na primeira oportunidade, que flexibiliza aquilo que lhe é mais caro em nome do pragmatismo eleitoral. Diante de poucas certezas “programáticas” de Marina, a suposta Terceira Via: também representa a vitória do Capital. Entendemos que esses 3 projetos (PT, PSDB e PSB/REDE) representam variações administrativas no marco do Estado e que seguirão ajustados às relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro. Não podemos nos deixar iludir pelas falsas alternativas; a SAÍDA À ESQUERDA É SÓ UMA.

As Ruas são a Única Saída à Esquerda

Junho de 2013 nos mostrou que existe certo descontentamento com o governo atual, principalmente pelos setores médios da população. Porém, a esquerda combativa (leia-se esta, a esquerda que luta por fora do poder burguês) tem tido imensas dificuldades de aglomerar todo este descontentamento em termos de organização e construção programática dos de baixo. Nesse sentido veremos setores oportunistas “surfando na onda”, da necessidade de mudança, chamando às “urnas” que são o “verdadeiro” lugar da cidadania (Marina Silva tão prontamente tomou este posto). Mesmo assim, observamos uma disposição da população para com a luta e ação direta, que a muito não víamos.

Quando se trata da juventude, aquela parcela da população escolarizada (os dados mostram que em junho a maioria era de universitários), com um perfil etário que não viu as mazelas do PSDB, mas que também não viu o PT em seus áureos anos de combate, tem aparecido com disposição para exigir mais, e isso o próprio PT admite em seu programa para 2014. Segundo a Pesquisa Agenda Brasil Juventude, nove em dez jovens acreditam que podem mudar o mundo, 83% entendem que a política é importante, e destes 45 % ( a resposta mais escolhida) dos jovens entendem “a participação e mobilização nas ruas e ações diretas” são o mais importante, seguido de 44% para “atuação em associações ou coletivos que se organizam por alguma causa”, em terceiro “atuação em conselhos, conferências, audiências públicas ou outros canais de participação deste tipo”, com 35%.

Podemos ver que as “ruas” vencem na pesquisa, todavia os instrumentos da Política Nacional de Participação Social, ainda ocupam um bom espaço, assim sendo a cooptação e manipulação da participação popular ainda estão voga, em franca disputa com os movimentos sociais independentes, afinal esta foi uma das últimas cartadas de Dilma para tentar capitalizar a revolta das ruas, a institucionalização do PNPP. Sabemos que este é mais um engodo, não porque discordamos da participação popular, mas porque sabemos que na ordem do dia não serão colocados o orçamento, a dívida pública, mas sim a reforma política, que nada irá alterar, afinal as eleições e nossos representantes são uma das facetas do poder burguês.

As relações de poder que garantem os privilégios e dominação das classes dominantes não serão alteradas pelas eleições. Nesse sentido, antes mesmo das eleições começarem, podemos ter uma certeza: as classes dominantes vencerão, e as classes oprimidas perderão, perder com governos que já tem pactuados seus acordos com as elites, os donos do poder, perder quando manipulados se enganarem e verem o poder neste processo, e assim se deixando cooptar pelo processo que somente legitima a Ditadura Burguesa com a áurea de democrática. A única vitória possível pelos oprimidos virá de sua organização e luta, pois mesmo as reformas não virão de uma mágica varinha de condão do Estado, mas pela capacidade de pressão que tem as classes oprimidas. É essa força que faz mesmo o reacionário PSDB aceitar programas sociais (afinal é temperatura da luta de classes que faz a política ceder, e não a benevolência ou consciência subjetiva destes senhores). Nesse ponto concordam PT e PSDB, bem como a classe dominante, o poder não pode se reorganizar, tampouco se democratizar, com reforma ou sem reforma política as eleições ainda serão uma encenação, o “espetáculo democrático”, pois os temas estratégicos para a população somente podem aparecer na ordem do dia por meio de sua ação direta.

Junho é uma pequena mostra disso, se arrefecendo o espírito de luta na massa, as pautas das ruas saíram de cena ou fizeram uma metamorfose, se tornando interessantes a burguesia (voltemos ao caso da suplementação orçamentária ao transporte, cujo o dinheiro vem caindo nas mão dos velhos cartéis). PT e PSDB não são iguais, mas ambos são partidos da ordem burguesa que disputam a gestão do aparelho, não um projeto de sociedade. A esquerda “revolucionária” que participa das eleições sequer tem força para disputar o aparelho, e serve como mera legitimação do processo, emprestando-o ares de plural e democrático. As mudanças que se ensaiaram vieram todas das ruas, e somente aí se apresenta uma saída à esquerda para o processo. Seus programas recheados de “boas intenções”, como eles mesmo sabem, sequer tem chances nas eleições minoritárias, menos ainda nas disputas em torno do poder executivo, elucidando mais uma vez que não há “milagre” que substitua o trabalho e a organização de base, demonstrando que sua incansável propaganda (12 anos o PSOL, e 20 anos do PSTU) pouco renderam eleitoralmente ou organicamente. Sequer são capazes de criar um campo de unidade da esquerda, apresentando nas eleições uma esquerda que é minúscula e fragmentada, e que muito pouco pode definir na atual política brasileira.

O terreno ainda é fértil ao nosso campo, que ganha mais espaço público que em outros tempos. Não ao acaso nos tornamos o bode expiatório mais atingido pelas farsas policiais. A população, em especial a juventude, está aberta para discutir uma nova política. Uma “Outra Campanha” nunca esteve tão em voga, afinal o consenso dos Partidos da ordem atual em torno da necessidade de pactuar as classes sociais, e de gerir a miséria capitalista da forma mais “humana” possível, fazem com que as massas olhe com ceticismo o processo eleitoral. Acreditamos que a única saída à esquerda possível é a organização dos de baixo e sua luta direta nas ruas. Apostamos na construção de processos de massas, sem “imposição” de programas “revolucionários” de cima. Afinal vanguardas descoladas não radicalizaram os de baixo por osmose, pois estes constroem seu espírito reivindicativo no dia a dia dos conflitos e das mobilizações.

As Ruas ainda jogam peso no imaginário daqueles que fizeram sua experiência de luta em 2013. O protagonismo político exercido pela população, na opinião dos anarquistas, sempre teve como lócus as manifestações e ações diretas em geral. Diante da realidade, que nos ofereceu uma recente revolta de massas no Brasil, este elemento das Ruas se mantém vivo no imaginário coletivo. Tanto o é que todos os candidatos da extrema esquerda a extrema direita reivindicam o legado de junho. O TRE tenta capitalizar nas urnas a “vontade de mudança”, tentando estabelecer uma disputa de “urnas” versus “ruas”, tentando definir que o lugar da política e da decisão, tem dia, hora e local marcado, estes definidos pelas classes dominantes, que já venceram antes do “gongo soar”.

Para nós Socialistas Libertários, a política dos de baixo não se faz nas urnas, mas no cotidiano do protagonismo de classe e da ação direta. Falar disso no atual momento não significa mais remeter a abstrações ou ao passado “dos anos dourados dos movimentos de massa”, mas remeter a algo que evoca no imaginário coletivo um real exercício do poder do povo. Sem sermos ingênuos acreditando que só ir as ruas basta, sabemos que a falta de organização de base fragiliza os processos de mobilização e facilitam as tentativas de controle pelos dominantes. Deste modo, nossa aposta é nas Ruas como espaço privilegiado da ação política, mas também é a aposta na organização horizontal e de base que fortalece a ação direta, com uma agenda popular que delibera, encaminha e executa seu programa: um programa dos de baixo, que não delega poder a nenhum político de plantão. Ou se vota com os de cima, ou se organiza e se luta com os de baixo!

Coordenação Anarquista Brasileira – CABSetembro de 2014