Periferia do Vale do Gravataí se levanta contra o governo e o patrão

20304_1010062269005331_5515766845836631583_nA última semana foi marcada por focos de resistência que ganharam expressão local e estadual lutando contra o governo municipal e a máfia do transporte metropolitano. Nos referimos aqui, principalmente, a luta travada pela periferia em oposição ao fechamento arbitrário de Unidades Básicas de Saúde e ao piquete promovido na zona norte da cidade contra a empresa laranja de transporte metropolitano, a Transcal, que opera há alguns anos com nova razão social da mesma máfia que comanda o serviço há décadas na região do Vale do Gravataí.

No caso de Cachoeirinha, é importante registrar que em ambos os processos de luta popular, além da presença libertária, operam interesses escusos de forças políticas que são base de apoio do governo federal. Citamos aqui principalmente o PT e o PCdoB que almejam aprofundar o desgaste político do PSB que há quase uma década comanda a Prefeitura desde o racha do “irmão bastardo” Stédile, sendo Cachoeirinha a maior base do partido no Estado do RS. No entanto, sempre é bom ressaltar que, independente do jogo partidário, a luta popular e as suas respectivas pautas são completamente legítimas, embora a coligação que governa o município tente deslegitimar toda e qualquer resistência dos de baixo.

O desafio que sempre esteve na ordem do dia é o de garantir, além da independência de classe, a permanência e coordenação ao longo do tempo dessas expressões de resistência do povo em luta na região, pois há inúmeros processos que resultaram dispersos após a conquista da necessidade imediata. Isso sem falar na fragmentação por força da cooptação e da intimidação.

Entre esses processos de resistência temos exemplos recentes que vão desde a vitoriosa luta contra a privatização da água em 2010 reunindo diversos sujeitos e tendo na comunicação popular o catalisador da revolta; as ações diretas com algumas vitórias pontuais da Frente de Luta pelo Transporte Público nos anos de 2012, 2013 e 2014; a conquista da moradia pela comunidade Arinos de Gravataí em 2014 e as lutas pela água de diversas comunidades; a resistência dos trabalhadores municipários de Cachoeirinha por meio do sindicato da categoria, sendo a oposição política de mais expressão e estabilidade ao longo dos últimos sete anos.

Porém, longe de simplesmente contar histórias onde o anarquismo operou como motor desses processos de luta na região, queremos fazer memória dessa resistência para que, a partir da experiência política acumulada, possamos superar os limites que foram comuns a essas lutas. Até mesmo porque na atual conjuntura onde partidos com origem de esquerda e hoje estão no governo federal aplicando as medidas de ajuste fiscal, não representam alternativa de poder real para solucionar as demandas dos de baixo, pois o aparente engajamento e dedicação militante tem prazo de validade até a disputa eleitoral de 2016. Portanto, fazemos essa reflexão e análise para debate junto as companheiras e companheiros que constroem conosco no dia a dia a necessidade de engajamento para mudança e transformação desse sistema de dominação que em nossa região opera com algumas características singulares.

A luta da saúde é uma pauta comum dos usuários e trabalhadores do ramo

Nas últimas semanas em Cachoeirinha, a pauta da saúde tem sido protagonizada pela periferia que luta contra o fechamento e a reestruturação arbitrária das Unidades Básicas. A ação direta realizada em frente è prefeitura municipal e que ocupou por iniciativa popular o gabinete do chefe do poder executivo pra fazer pressão, rendeu no dia seguinte a promessa do Secretário de Saúde de manutenção das atividades dos postos sem cessar o atendimento. Vitória parcial do povo organizado. No entanto, o desafio neste momento é colocar em movimento usuários e trabalhadores do ramo, pois as ações antipopulares do governo municipal são apenas parte da estratégia de tratar o serviço de saúde como um negócio privado. Isso irá afetar tanto a comunidade quanto os trabalhadores do ramo, pois a lógica a ser implantada é a da meritocracia, do fazer mais com menos recursos e impor ao trabalhador a disputa competitiva sob o engodo da premiação por produtividade. Portanto, é urgente e necessário unificar os interesses dos trabalhadores e usuários numa perspectiva classista.

A luta pelo transporte público é das comunidades, dos estudantes e dos rodoviários

O piquete da última sexta-feira em frente à garagem da Transcal durou bravamente mais de cinco horas, inviabilizou a circulação dos ônibus na região metropolitana na região e ganhou repercussão em todo o Estado do RS. Foi uma experiência ímpar de enfrentamento direto com a patronal do transporte, tendo a comunidade como sujeito protagonista desse processo que enfrentou sem medo a intimidação truculenta da empresa e da Brigada Militar. Na pauta de reivindicações, para além da revolta em virtude da redução dos horários e mudança de itinerário de algumas linhas, incorporaram-se solidariamente demandas dos trabalhadores rodoviários que não são defendidas pelo sindicato metropolitano, tão pelego e mafioso quanto o da capital. Como conquista imediata obteve-se o retorno do itinerário comum da linha que circula pelo bairro Granja Esperança naquele mesmo dia. As demais pautas ficaram na promessa de serem atendidas pela empresa até a próxima semana, mas todos cientes da necessidade de manter a mobilização permanente para pressionar a Transcal no cumprimento dessas demandas. O cenário deste próximo mês torna imprescindível a necessidade de unificar a luta pelo transporte público desde as comunidades, dos estudantes e dos trabalhadores rodoviários, pois está anunciado o aumento das passagens de ônibus concomitante ao dissídio da categoria, tanto a nível municipal, quanto na região metropolitana. Sabemos que a empresa irá tentar justificar o aumento jogando trabalhadores contra usuários, portanto, essa experiência recente do piquete abre um precedente na luta pelo transporte público de aliança entre os distintos segmentos e que deve ser mantida a todo o custo.

A luta pela água é contra a privatização do saneamento

Como parte das lutas na região, as diversas mobilizações da comunidade no ano de 2014 em virtude da falta da água expuseram a precariedade dos serviços prestados pela CORSAN. Estivemos dentro desse processo, porém com uma linha firme de defesa do caráter público do serviço e contra a privatização: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=245

Naquela circunstância o prefeito Marco Alba já insinuava o rompimento do contrato com a CORSAN para abertura de licitação e privatização do saneamento. Nessa semana, porém, num cenário distinto em relação ao do ano passado onde vivemos um considerável descenso das diversas lutas na cidade, o prefeito do PMDB anunciou que fará o rompimento do contrato com a CORSAN. Está na ordem do dia, portanto, o movimento popular e sindical tomar parte dessa pauta sob o risco de sofrermos uma enorme derrota enquanto classe.

Potencializar a luta sindical para além do corporativismo e coordenar as lutas na região para fortalecer o poder dos de baixo

Diante do contexto de mobilizações nacionais contra as terceirizações (PL 4330) e o ajuste fiscal (MPs 664 e 665), que flexibiliza diversos direitos, como o seguro desemprego, a atual conjuntura torna-se ímpar para que as mobilizações locais ganhem amplitude e repercussão ao mesmo tempo em que serão fortalecidas. Nossa modesta força militante está atuante nesses processos de luta com uma linha e conduta coerente de fortalecimento do poder de baixo. Não trocamos nossa independência política por cargos e tampouco nos engajamos nas lutas com pretensões políticas-eleitorais. Nossa estratégia de mudança passa pela construção do Poder Popular que vem sendo gestado e criado a partir das experiências concretas acumuladas ao longo dos 20 anos que completa nossa organização. Está na hora de coordenamos as experiências de luta na região com critérios de independência, solidariedade de classe e protagonismo de base.

Todos à luta no dia 29 de Maio, contra a terceirização do PL 4330 e o ajuste fiscal das MPs 664 e 665!
Por uma coordenação das lutas na região para fecharmos o punho contra o inimigo de classe e superarmos a fragmentação!
Que a ofensa feita a um seja a luta de todos!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG – Organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)
20 anos (1995-2015)
24 de Maio de 2015

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>