Prisões e mais criminalização marcam o final da Copa do Mundo no Brasil

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB (publicado originalmente em: http://anarquismo.noblogs.org/?p=103)

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Desde seu início, a Copa do Mundo foi desastrosa para os setores oprimidos do país. Sua elaboração já indicava a forte censura que sofreriam todos aqueles e aquelas que estão no caminho contrário de suas ações. A Copa, com suas leis e regimentos colocou em situação de risco os precários direitos dos povos do Brasil. A lista de situações de opressões é gigantesca e o desfecho de sua estadia aqui, deixa um “legado assombroso” em termos de criminalização e perseguição política que demonstra a verdadeira face do Estado e do capital.

Sabemos que as críticas que foram feitas a este megaevento surgem com as insatisfações da população em geral e certamente estas insatisfações encontram abrigo maior no seio dos mais oprimidos. A violência contra a pobreza, que já era prática constante dos governos e suas polícias se intensifica neste período e as comunidades padecem nas mãos de uma aparato repressivo e assassino, a população de rua se torna muito mais vulnerável à agressões daqueles que “defendem a ordem”, os ambulantes, os trabalhadores informais são atacados e roubados pela “fiscalização Estatal” para que não possam macular as grandes patrocinadoras e as grandes marcas, as 250 mil famílias que perderam suas casas por contras das obras da Copa também estão sofrendo fortes consequências por parte desta política desenvolvimentista.

É importante destacar que quem mais lucrou com a Copa do Mundo no Brasil foram as empreiteiras, já milionárias e a própria FIFA. Estima-se que faturaram 26 Milhões de R$ somente dos cofres do governo Federal, sendo a Odebrecht participante de quatro estádios. Os empresários lucram, e os governos se beneficiam do “caixa 2” sempre utilizado pelos partidos da ordem, como por exemplo na obra do Maracanã onde o TCE constatou o superfaturamento de 67,3 milhões de reais. Sem falar que tais estádios servem ao entretenimento somente a elite branca do país, como demonstrado em pesquisa do Datafolha no dia do jogo do Chile: 67% dos que frequentaram o jogo se declararam brancos e 90% pertencentes a classe A, contrastando com uma população cuja 49% (9% dos que assistiram o jogo) da população faz parte da classe C, e que tem em sua população 56% de negros e pardos (autodeclarados). Tais dados não deixam dúvidas sobre, para quem foram feitos tais jogos.

Os movimentos populares que desde de 2013, desenham um novo cenário de mobilizações no país sofreram uma crescente perseguição brutal que tenta intimidar e levar até as ultimas consequências as estratégias de criminalização dos anseios populares. As polícias receberam grandes investimentos para melhor agredir a população indignada com as injustiças sociais. A marca constante de todos os governos, desde o início de 2014, no cenário das mobilizações e greves foi a intensa repressão, fazendo das suas investigações e acusações um passo largo para um Estado mais duro no âmbito jurídico e militar. Esse foi o caso das prisões realizadas em Goiânia por um processo de investigação da Policia Civil e em Fortaleza, assim como as prisões de manifestantes em Joinville (SC), realizadas nas manifestações contra o aumento da passagem, onde os detidos (alguns da Coordenação Anarquista Brasileira) agora começam a responder judicialmente tendo que comparecer a diversas audiências. Todo este sistema repressivo encontra o apoio das grandes mídias, com seus monopólios espalhados pelo país, cujos pilares, são importantes instrumentos para essa “caça as bruxas”. Ferramentas potentes de criminalizar e deturpar as lutas que os movimentos sociais fizeram.

Os inquéritos que foram montados são provas cabais da vocação que a justiça e os governos tem para acossar os militantes e seus movimentos políticos. Todas as medidas utilizadas pelas polícias com o aval da justiça são infames. Em 2013 a grande repressão que sofreu as ruas já deixaria muita gente lesada de suas garantias de manifestações, assim como, colocou na cadeia sem prova reais algumas pessoas. Neste ano, com o início da Copa vários estados do país são violados com buscas e apreensões e na última semana apresentam uma lista gigante de mandados de “prisões temporárias” para o Rio de janeiro.

Dezenas de militantes e ativistas são presos e levados para o presídio de Bangu, onde estão detidos. Os argumentos para esta absurda ação são profundamente ideológicos, onde os governos fazem utilização da violência de Estado, como a velha e conhecida política por outros meios. Uma operação que tem como objetivo a privação da liberdade de se manifestar e opinar sobre as questões sociais no país. Uma operação policial que mancha com resquícios de estado de exceção o momento que vivemos. Não é novidade que as polícias apresentam como “provas” contra os manifestantes as opções de classe dos mesmos, com apreensões absurdas de materiais políticos como livros, cartilhas, bandeiras (como na invasão da sede da FAG e nos atuais processos). Montam a partir desta grande FARSA acusações como formação de quadrilha ou mesmo milícia privada para atacar quem se manifesta contra as injustiças sociais praticadas cotidianamente contra os setores mais oprimidos da sociedade.

As medidas tomadas pela (in)justiça brasileira que acata e ordena as prisões é vergonhosa e sabemos que não podemos esperar nada de diferente vindo destas instituições; nossa tarefa é denunciar amplamente o desmanche que esta ocorrendo com os precários direitos dos povos deste país. A escalada de violência policial e a criminalização dos pobres atinge diversos setores da luta sindical e popular, como a demissão de 41 Metroviários em SP e a multa de R$ 355 milhões contra seu Sindicato. Some-se a isso, as recentes 169 demissões dos trabalhadores temporários do IBGE, que estavam em greve e os inúmeros mandados de prisões emitidos no Rio de Janeiro e São Paulo.

Esses inúmeros casos que não param de crescer, nos exigem muita atenção e uma forte campanha de solidariedade entre os setores da classe oprimida. No contexto de prisões e perseguição a esquerda combativa e independente de patrões e governos precisa atuar conjuntamente em denúncia sobre estas tremendas violações.

Precisamos cercar de solidariedade quem esta tendo sua liberdade privada, abrir fortes campanhas para denunciar que hoje, o direito de manifestação e organização que está sendo atacado com fortes golpes de cassetes, balas e gás lacrimogêneo. Precisamos continuar construir alternativas e uma estratégia de massas nesse momento de ataque das classes dominantes. Para isso, é necessário empoderar organismos sindicais de base, movimentos populares e movimentos rurais, independentes de patrões, burocracias e governos.

Que as milhares de pessoas agredidas e assassinadas pelo Estado não sejam esquecidas, para que os grevistas não se sintam sozinhos, para que todos os manifestantes e militantes não sejam mais criminalizados e para que as prisões não fiquem impunes, colocamos nossa modesta, mas convicta SOLIDARIEDADE DE CLASSE e nosso compromisso de denunciar ao mundo estas aberrações cometidas pelos governantes do Brasil, hoje comandados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) que acomoda o interesse dos ricos com a forte repressão aos pobres e lutadores.

Continuaremos a luta companheiras e companheiros!

Pela liberdade imediata de todos os presos políticos!

Protestar não é crime!

Não Passarão!

CAMPANHA SOLIDÁRIA COM A ALDEIA KAINGANG DE KANDÓIA-RS

solidariedade kandóiaFORA DO PRESÍDIO, PRESOS EM SUA PRÓPRIA TERRA

A maioria dos indígenas, em especial no sul do país, habitam na verdade as sobras das terras partilhadas pelo latifúndio e pelos projetos desenvolvimentistas. As “aldeias”, hoje, se configuram em grande parte como barrancos espremidos entre as rodovias e as cercas de alguma propriedade privada, ou então como pequenas porções de terra que mais lembram periferias rurais ou urbanas do que o que realmente são, pedaços de resistência dos grandes territórios tradicionais habitados secularmente pelos povos originários.

Quando por força de liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ), as lideranças Kaingang Deuclides de Paula, Nelson Oliveira, Celinho de Oliveira, Daniel Fortes e Romildo de Paula deixaram as celas do presídio de Jacuí, em Charqueadas-RS, onde foram mantidos como presos políticos do Estado por mais de 40 dias, foi para uma destas pequenas porções de terra, e não para uma “floresta isolada”, que os indígenas retornaram.

De maneira trágica, embora estejam em liberdade e juntos de suas famílias, não é nenhum absurdo afirmar que as lideranças indígenas trocaram uma espécie de cárcere por outro. Se por um lado deixaram o cárcere das paredes sufocantes de uma penitenciária e o peso de terem sido condenados injustamente, por outro retornaram para o cárcere que há muito acompanha a história de suas vidas, o de uma terra indígena não demarcada, da falta de poder viver sua cultura e sua tradição, do medo e preconceito vivenciados por uma comunidade inteira por mais de 20 anos.

Como apoiar a causa idígena de Kandóia:

Organize um ponto de arrecadação de roupas, cobertores e alimentos não perecíveis no seu bairro, na sua cidade, no lugar de estudo ou trabalho, no sindicato e nos espaços coletivos dos movimentos sociais. Ou então, ajude diretamente fazendo uma doação solidária e mobilize mais gente no apoio.

Arrecadação no Ateneu Libertário Batalha da Várzea:
De segunda a sexta das 14 as 18hs na rua Ramiro Barcelos 1835 Clube de Cultura.

Um rápido esboço da questão:

A aldeia Kaingang de Kandóia, localizada no município de Faxinalzinho, na região norte do estado do Rio Grande do Sul, embora reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) como um território indígena há mais de 12 anos, com aproximadamente 2.877 hectares, ainda segue sem finalização de seu procedimento demarcatório que hoje repousa engavetado pelo Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Atualmente mais de 200 indígenas Kaingang que esperam pela demarcação vivem em um terreno de apenas 04 hectares, sem espaço suficiente para plantar, cultivar qualquer tipo de animal e desenvolver suas práticas tradicionais e culturais.

Toda esta espera e indefinição a respeito da demarcação da Terra Indígena Kandóia geraram nos últimos anos um clima de conflitos e intolerância por parte dos agricultores locais, a quem o Estado concedeu titulação ilegal através de programas de reforma agrária.

Em 2014, após sucessivos atos de displicência e negligência por parte do Ministério da Justiça e do Governo do Estado do RS com a questão fundiária envolvendo a demarcação de Kandóia, onde, inclusive, o próprio Ministro José Cardozo faltou por mais de cinco vezes à reuniões pré estabelecidas que buscavam a resolução dialogada entre os Kaingang e os agricultores, um protesto realizado pelos indígenas acabou em conflito onde dois trabalhadores rurais foram mortos em trocas de tiros com indígenas.

Texto de apoio: Gapin Sta Maria.